Alice Varajão/DivulgaçãoFrancisco Millarch junto a parte do acervo do pai, o jornalista Aramis MillarchSempre antenado com as novidades, o jornalista Aramis Millarch com toda certeza ficaria satisfeito se pudesse ver o que está sendo feito com o material que deixou, ao morrer em 1992, um dia após completar 49 anos de idade. Dos cerca de 50 mil textos escritos para 19 periódicos entre jornais e revistas, 3.883 estão disponíveis na Internet. O endereço do site : http://www.millarc.org.
A iniciativa de ampliar a um sem número de leitores a obra erguida pelo jornalista em mais de 30 anos de carreira, partiu do filho Francisco Millarch, que está bancando o projeto, enquanto luta para conseguir um patrocínio. ‘‘Se depender de mim vai levar uns dez anos para concluir os trabalhos. Com os recursos de um patrocinador, esse tempo será reduzido para dois anos’’, avalia.
Batizado de ‘‘Tablóide Digital’’ (o título faz referência à coluna ‘‘Tablóide’’, mantida durante 27 anos no jornal ‘‘O Estado do Paranᒒ), o projeto caminha em sentido contrário ao que vem sendo feito - enquanto a grande imprensa vem jogando suas páginas na Internet de uns anos para cá, Millarch propõe o oposto. 1992 é o ano base que irá retroceder até a década de 50.
‘‘Estou fazendo este trabalho sob o ponto de vista de um jornalista que se dedicou sobretudo às artes, ao cinema, à cultura, à nossa história’’, explica. ‘‘A nossa idéia é formar um panorama digital de mais de 30 anos. Vamos recuperar coisas regionais com importância às vezes nacional, como a inauguração do Teatro do Paiol, por Vinícius de Moraes e Marília Medalha’’.
PatrocinadoresFrancisco Millarch enviou o projeto para a Lei Rouanet, em Brasília. Foi aprovado em primeira instância. ‘‘Falo com o pessoal e todos se apaixonam pela idéia. Mas a resposta é sempre a mesma: quando ela for aprovada pela lei municipal o dinheiro estará na mão’’.
Das várias empresas que demonstraram interesse, destacam-se duas - uma instituição de ensino e uma multinacional da área da informática. ‘‘Acredito que dentro de alguns meses este caso esteja solucionado. Caso contrário, vou tentar a Lei de Incentivo Municipal’’, planeja Francisco.
A seu ver o projeto foi orçado numa quantia modesta, de R$ 200 mil. ‘‘Não olhei como um produto a ser comercializado’’, frisou. O valor dilui ainda mais se levar-se em conta que o retorno será ‘‘constante e perene ao patrocinador, pois todas as bibliotecas, universidades e centros de pesquisas do Brasil receberão gratuitamente uma cópia em CD-Rom ou mesmo DVD, além de ser disponibilizado pela Internet, superando assim qualquer fronteira geográfica’’.
EtapasPelo volume de material arquivado pelo jornalista o ‘‘Tablóide Digital’’ terá que necessariamente ser dividido em etapas. A primeira é esta de colocar na Internet os cerca de 50 mil artigos. Num segundo momento virão os bastidores do jornalismo - revelando as cartas, bilhetes, telegramas, dedicatórias - que sustentavam com um complemento inédito, as informações publicadas na coluna ‘‘Tablóide’’.
Essa fase inclui também o áudio - as centenas de depoimentos colhidos por Aramis para seu programa ‘‘Domingo sem Futebol’’, que a Rádio Ouro Verde levou ao ar durante cinco anos nas tardes domingueiras. Um momento histórico - entre tantos - foi o da cantora Maysa, em sua passagem por Curitiba. Dias após gravar a entrevista a artista morreu num acidente de carro no Rio de Janeiro.
Os roteiros originais de ‘‘Domingo sem Futebol’’ estão em poder de Francisco. Ele diz que a idéia é recuperar esse material e também colocar na Internet. ‘‘Por isso estou buscando patrocínio, porque quero tornar público esse mundo de informações, para que qualquer pessoa tenha acesso, sem ter que pagar nada. Quero divulgar essa história’’, afirma.
LequeA coluna (que se ampliava em páginas especiais, conforme a ocasião) abria-se muitas vezes para assuntos variados. Mas a música e o cinema eram suas principais paixões. Ele se obrigava a citar os filmes colocando o título em português, acompanhado do original em inglês - entre parênteses á-, e mais a ficha técnica: diretor e principais atores.
Em todo final de ano (ou no primeiro domingo do ano seguinte) Aramis publicava uma extensa lista dos ‘‘melhores do ano’’, que iam de músicas a filmes, discos, livros, shows, peças teatrais. ‘‘Ele pegava opinião de críticos do Brasil inteiro’’, lembra seu filho. ‘‘Quando ele morreu, não se deu prosseguimento a isso. Nossa idéia é coletar esses textos’’.
Quando esse material estiver digitalizado, o público da Internet terá à disposição um panorama de fácil pesquisa. Bastará apertar um botão em Paulinho da Viola para ver na tela sua discografia, os shows realizados em Curitiba, e os eventos importantes dos quais participou nessa época.
E haverá alguns sustos, como o de saber que o percussionista catarinense Airto Moreira abocanhou um ‘‘Grammy’’ (o Oscar da canção nos Estados Unidos), na categoria World Music. A imprensa brasileira, em peso, acompanhou passo a passo a divulgação dos premiados, porque Milton Nascimento concorria a uma estatueta. Com a derrota de Milton, a choradeira foi geral. Aramis foi o único em sua coluna a noticiar a vitória-solo brasileira.

mockup