‘TÁ VIVA A LETRA!’

Rubens Pillegi SáCom seu grito de guerra, Jardelina da Silva sai às ruas para falar de Deus, do diabo e de coisas da Terra que a gente nem sabeO índio
‘‘O índio roçava as terras. Era ele roçando e os brasileiros tomando as terras deles. E ele andando, andando. Agora a terra dele já tá dos Estados Unidos pra lá. Tudo morto. Eu enxerguei ele me matando com a flecha. Quando o outro falou não atira nela que é uma criança, eu estava dentro da mata, mas invísivel mesmo, não era sonho. Aí quando eu entrei no meio da mata, o índio velho veio com aquela flecha pra me matar. Que ele soltou a flecha com a maior força, a flecha passou por riba d’eu e caiu no chão. Foi tão funda que a terra deu sangue.’’

Nas profundas do inferno
‘‘Eu fui no Tabocal que é debaixo da terra, que é o lugar dos pecados, do buraco. Pode assinar. Fui nos quintos dos infernos. Achei o rosário de Nossa Senhora queimado dentro. Entrei nos quintos dos infernos pra salvar Nosso Senhor, invisível. Fui nas profundas dos infernos. É o lugar das frutas. Cada fruta que já nasce tudo amarelinha. Tudo docinha. Nas profundas do inferno. Já nasce as frutas maduras. Juro às luzes divinas. Jardelina da Silva.
Eu fui na tábua lascada, onde faz as casas de móveis. Eu fui nos 7 corgos dos infernos. Lá é aonde ajunta o sangue dos coitados que morrem na faca. Tem um poço de sangue lá. Sangue cru mesmo. Lá nas... esqueci o estilo da boca.
Atravessei o poço de sangue vivo. Nos 7 corgos do inferno. Tava a novilha branca de meu pai Conrado deitada lá descansando. Tava junto ao poço.
Quando Jarda saiu fora da novilha branca e dos 7 corgos do inferno, Jarda entrou no Rio do Ganso. É o resto da palha da cana. Fica pro lado de Aracaju, pra baixo. Jarda avistou uma casa com a letra. Eu acho que é um pato. Quando Jarda ia entrando na casa o homem falou ‘não deixa essa menina entrar aqui. Quem entrar, não sairá. Palácio velho’. Juro por Nosso Senhor. Tudo invisível.
Quando eu saí do Rio do Ganso, atravessei, cheguei na frente e alcancei o Rio de Piracicaba cercado todo de cipó, coisa mais linda. Aí uma voz falou: ‘Só bebe dessa água aqui essa menina. Esse rio foi Jesus que cercou.’ Tá cercado, não passa nem um mosquito. Eu olhando por um buraquinho. Aí que medo que eu passo, meu Deus! eu morro de medo das águas das coisas. Quando eu saí do Rio de Piracicaba, eu encontrei o Rio de Leite. Quando cheguei no Rio de Leite, já tinha o cachimbo dentro. Falou a voz: ‘Esse cachimbo é de João Meneis, quem soltou aqui foi a velha Dina.’ A velha Dina é uma velha que nunca casou. E eu encontrei ela lá no maior sofrimento, estrepada num toco assim. Ela disse: ‘Eu nunca casei, agora eu tou sofrendo aqui.’ Ela é macho/fêmea. Ela morreu um dia desses. Que a Jarda saiu do Rio do Leite, e o coração da Jarda caiu, e vai as duas porteiras do mundo, tudo quebrado os dois vidros. Lá e cá.’’

O anjo sou eu
‘‘Eu vou te contar a verdade: O Pedro Alves Cabral descobriu o Brasil em leitura, mas só até Cajazeiras, por causa do Virgulino não teve jeito dele passar de lá. ‘Eu só dou a letra pra descobrir o resto do Brasil para um anjo puro e inocente que não sabe nem assinar o nome.’ O Jano Quadros também jurou pelo anjo puro e inocente. O anjo sou eu.’’

Sabedoria
‘‘O que vocês sabem eu não sei. E o que eu sei vocês não sabem. Mas agora vocês vão saber porque eu estou falando. Vocês vão achar o fim do mundo se Deus quiser. E a lua é para o lado que eu falei.’’

Fogo na roupa
‘‘Quando eu tiro a roupa, parece que o couro queima, nada tá bom no meu couro. Eu fico pelada e vejo Nosso Senhor me levando para o céu. É o índio, Pai Javé, o primeiro índio. Ele incendiou a roçada dele, não teve para onde correr e morreu num oco de pau, ele morava lá. Eu era invisível e vi onde ele morreu.’’

O ninho das cobras
‘‘Eu fui no ninho das cobras, invisível. Aquelas cobras só abrem a porteira pra eu. Se for pra um lado morre, e se for pra outro, morre. É o fim do mundo. Lá pra onde eu aponto a mão é o cemitério da escravidão. Se não é eu o mundo ia afundar. Não tinha jeito.’’

A salvação do mundo
‘‘O mundo não vai acabar mais. O mundo vai ‘santidá’. Nosso Senhor deu o cabresto do mundo na minha mão. A voz fala: ‘Quem faz o mundo é essa menina.’
Aqui eu sou velha, mas no mundo das trevas eu sou uma menina. Eu me apresento lá sempre com 10 anos. Eu entro no inferno com a cara feia. Eu entro no céu. Tudo com 10 anos.’’

Jesus mulher
‘‘Eu sou Jesus, eu acho. Tou achando que Jesus nasceu mulher por riba de eu. Só pode ser!’’

O milagre na guerra
‘‘Eu que ajudei Maria de Nazaré na Guerra do Paraguai. Cheguei por trás e disse: ‘Ó mamãe, é eu.’ Ajudei a levantar a cinza. Eu levantava a cinza e dava pra ela jogar pra trás e nascia gente das cinzas. Não tem mais nada no mundo pra desencantar. Eu vi a besta-fera.’’

O buraco do Fóda
‘‘Eu soltei o mundo inteiro no Fóda. No governo do Ferreira Fóda. Sabe quem é? É o comunismo da caixa-forte. É o que manda em todo país. A boca do Fóda é no Tabocal. É lá o buraco do Fóda. Tem um buracão, que se cair o mundo dentro, a altura que tem até embaixo, tem até a nuvem. E o Fóda é no Tabocal. E o Tabocal é a cama do Inferno. Aquele povo que faz as coisas e não dá a letra.
Naquele buraco tinha o gato e o boi Salomão todo estrelado com aquelas letras de ouro. Quem derrubou eu foi o gato preto mijando fogo.’’

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