São Paulo, 03 (AE) - Toda unanimidade é burra, dizia Nélson Rodrigues, mas não há burrice alguma na unanimidade que considera Clarice Lispector a maior escritora brasileira. Ela morreu há 22 anos e sua obra, mais do que nunca, está viva. O que era elucubração poética e até mesmo mística hoje faz parte do cotidiano das pessoas, diz o diretor de teatro Eduardo Wotzik
que trabalha com os textos da escritora. Wotzik estará amanhã no Espaço Unibanco de Cinema para mais uma celebração de cinema e literatura.
O quinto programa do ciclo Cinema e Literatura, que já mostrou "As Meninas", "Sargento Getúlio", "Feliz Ano Velho" e "Nunca Fomos tão Felizes", prossegue amanhã às 20 horas com "A Hora da Estrela". Após a projeção do belíssimo filme de Suzana Amaral, haverá debate do público com a diretora e Wotzik. O mediador será o crítico literário Rinaldo Gama. Curiosamente, também hoje ocorre o lançamento, na Fnac, a partir das 18h30, do livro "A Hora de Clarice Lispector", de Hélne Cixous, com direito a outro debate (com a tradutora da obra, Rachel Gutiérrez, e David Bogomoletz.
"A Hora da Estrela", último livro de Clarice, foi publicado em 1977, no mesmo ano em que ela morreu. Suzana leu o livro quando realizava o curso de pós-graduação em cinema na Universidade de Nova York. Identificou-se de imediato com a história de Macabéa, a nordestina ingênua perdida na cidade grande "feita contra ela". Suzana talvez repita amanhã à noite o que já disse inúmeras vezes: ela também se sentia um pouco Macabéa em Nova York.
Macabéa é a anti-heroína: "São essas mil balconistas, faxineiras, secretárias e bancárias que existem por aí, sobrevivendo em subempregos, enfrentando o problema da solidão." O livro foi um momento de exceção na obra da própria Clarice. Obra de extrema depuração, lida com fatos e gente de carne e osso, em vez dos estados de alma e poéticas divagações dos textos anteriores.
Suzana compreendeu-o. Surpreende, no filme, o toque feminino que o percorre. A diretora lança seu olhar sobre a escrita de outra mulher que fala sobre uma terceira figura feminina. Talvez seja por isso que "A Hora da Estrela", o filme, consiga expor com tanta clareza o universo feminino por meio das três personagens interpretadas por Marcélia Cartaxo (Macabéa), Fernanda Montenegro (Carlota, a cartomante) e Tamara Taxman (Glória, a companheira de trabalho da primeira).
No livro, Clarice conseguiu tocar o popular e o erudito e, quando isso ocorre, diz Wotzik, o resultado é uma obra que se destaca pela grandeza, "pela largueza de horizontes". O filme de Suzana possui essa mesma largueza. É uma obra que tem valor em si mesma e como tributo excepcional a uma artista que foi incomparável no País. Não seria a mesma coisa sem Fernanda, como a cartomante que faz a ponte entre "A Hora da Estrela" e a Dora de "Central do Brasil". Fica melhor com a genial interpretação de Marcélia, merecidamente premiada no Festival de Berlim.

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