SUTILEZAS MONOCROMÁTICAS
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de agosto de 2000
Elisa Marilia Carneiro De Curitiba 
Há 13 anos sem expor em Curitiba, a artista plástica Bia Wouk retorna com uma individual no Museu Alfredo Andersen. Desta vez, ela traz seus últimos trabalhos em escrita e imagens abstratas. Estou preparando a minha volta ao Brasil depois de 24 anos morando fora, festeja.
O trabalho da artista é o resultado de uma interessante experiência de vida. Casada com o diplomata brasileiro João Almino, Bia envolveu-se com as culturas francesa, americana, mexicana, portuguesa e libanesa, países onde o marido serviu. Morando em Londres desde 1976, psicóloga de formação, Bia começou a estudar desenho e gravura numa pós-graduação da ôcole des Beaux Arts, em Paris, com uma bolsa de estudos concedida pelo governo francês. Foi nessa época que conheceu o marido, que também é escritor.
Por todos os lugares onde passamos deixei um pé. Sempre expus e fiz contatos com galeristas e críticos de arte. Foi um aprendizado maravilhoso ao mesmo tempo que exigia um senso de adaptabilidade incrível. Sempre tinha de começar pelo zero, mostrar meu trabalho, me apresentar, esperar que as pessoas se interessassem e quisessem me conhecer, conta.
Mesmo vivendo fora, Bia sempre manteve contato com a família, a cidade e as pessoas da área de artes plásticas. Minhas duas filhas são muito brasileiras. Nós viemos regularmente ao Brasil durante este tempo, mantivemos os contatos e agora vamos restabelecer as ligações, porque muitas galerias fecharam, mudaram de dono, vários críticos de São Paulo e do Rio de Janeiro morreram, lembra adiantando que para o próximo ano organiza uma exposição na Pinacoteca de São Paulo.
As mudança na vida da artista acompanharam a sua carreira. Nos anos 70, Bia trabalhava a arte conceitual, com palavras e imagens em formas geométricas. Eram blocos abstratos com palavras soltas e imagens sobrepostas.
Depois disso, na década de 80, o figurativo tomou conta das obras. Vieram as superfícies dos vidros e as vitrines em vários planos. Usando a fotografia como base deste trabalho, a artista plástica fazia desenhos a partir de fotos do conteúdo e do que estava refletido. Foi um trabalho mais poético, de sonho mesmo, recorda.
Nos anos 90, Bia retornou à escrita aliada às imagens não figurativas. Pela primeira vez começo a usar a pintura como base para escrever. Faço linhas sem significados. São gestos e traços como um desenho de quem está conversando ao telefone ou de um prisioneiro numa cela contando com tracinhos os dias de cárcere. De longe parecem manchas, mas quando se chega perto percebe-se um exercício sobre a memória e o tempo.
As telas são grandes, com 1,20 x 1,40 metros, em óleo. Todos tendem a ser monocromáticos nas cores primárias: vermelho intenso, azul anil e amarelo. Bia usa também muitos brancos em quase transparências. É preciso chegar perto para sentir a superfície e perceber os brancos sobre brancos. Como uma textura sutil, mas impactante, reconhece. Bia trabalha também com o dourado ou prata, sobre vermelho e azul, mas é preciso forçar a vista para perceber as camadas de cor.
Bia Wouk Exposição no Museu Alfredo Andersen (Rua Mateus Leme, 336, telefone (41) 222-8262). Até o dia 9. Das 9 às 18 horas de segunda a sexta e das 10 às 16 horas aos sábados.


