Sutilezas da vida
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terça-feira, 24 de março de 2015
Geraldo Bessa<br>TV Press 
A personalidade forte de Débora Bloch, de 51 anos, livrou sua carreira de alguns rótulos. Nos anos 1980, ao achar que poderia ficar marcada pelas mocinhas, trilhou um caminho na direção do humor. Na década seguinte, antes que a vissem apenas como uma atriz cômica, se aventurou por trabalhos mais densos e dramáticos. Com uma trajetória diversa e marcada por personagens de destaque, Débora enxerga em Lígia, protagonista de "Sete Vidas", uma nova experiência.
"Estreei na Globo aos 18 anos. Já fiz muita coisa e é bom ser surpreendida. Lígia é bem diferente das coisas que tenho feito. Um exercício de ser cotidiana. Existe uma forte complexidade nisso", conta.
Em sua 13ª novela, Débora construiu grande parte de sua carreira na Globo, em tramas como "Jogo da Vida", "Cambalacho", "Cordel Encantado" e "Avenida Brasil". A única exceção fica por conta do remake de "As Pupilas do Senhor Reitor", produzido pelo SBT em 1994.
Na busca por autonomia e outros rumos, é no teatro que ela investe quando não está no ar. "São anseios complementares. E acho que o fato de me produzir no teatro foi fundamental nessa minha postura mais criteriosa em relação aos convites para fazer tevê", destaca.
Seu último trabalho na tevê foi "Saramandaia", de 2013. Você já estava com vontade de voltar aos estúdios?
Gosto tanto do que faço que pinta mesmo uma saudade de estar em algum projeto. Porém, terminou "Avenida Brasil" e logo em seguida comecei a trabalhar em "Saramandaia". Foi muito bom dar uma parada e aproveitar para fazer algumas coisas que não consigo com uma novela no ar. Eu sabia que faria novela esse ano, mas não sabia qual. Até que recebi o convite do Jayme e da Lícia. Nunca tinha trabalhado com nenhum dos dois.
Esse "ar" de novidade pesou na hora de acertar a participação?
Com certeza. Eu já os conhecia e admirava o trabalho dos dois. "A Vida da Gente" é um ótimo cartão de visitas desse núcleo. Pensei que, mesmo estando na tevê desde o início dos anos 1980, sempre vai existir uma forma de experimentar e entrar em contato com novos processos de preparação e gravação. A minha carreira vem se diversificando muito ao longo dos últimos anos e esse trabalho é uma continuidade disso.
Depois de fazer comédia em "Avenida Brasil" e flertar com o realismo fantástico em "Saramandaia", sua personagem agora é extremamente naturalista e contemporânea. Essa variedade de tipos é uma opção sua ou simplesmente acontece?
Tem um pouco de cada coisa. Eu sempre gostei de ter um certo controle sobre o que faço. Então, negocio muito com a emissora e os diretores. Na tevê existe uma padronização e ela acontece de forma natural. Quando fiz "Jogo da Vida" (1981), minha primeira novela, todo mundo me queria apenas como mocinha. Essas limitações são muito prejudiciais.
Participar de "TV Pirata" quebrou um pouco esse padrão, certo?
Sim, mas criou outro. Virei uma das "queridinhas" da comédia. É um dos meus trabalhos mais famosos e foi um grande sucesso na época. Sou muito feliz de ter participado desse programa, estar entre amigos e encontrá-los até hoje. Mas a parte mais estranha disso tudo é que muita gente torceu o nariz quando fui escalada pelo Guel (Arraes) para o projeto. Estreamos e aí viram que eu conseguia também ser engraçada. A partir daí o humor pautou os convites.
Isso a incomodou?
Não, pois muita coisa boa começou a acontecer. Intensifiquei o trabalho no núcleo do Guel em projetos como "A Comédia da Vida Privada", que era uma delícia de fazer. Mas teve uma hora que eu quis realmente dar um tempo e fazer algo diferente. Foi quando aceitei um convite do Nilton Travesso para participar de "As Pupilas do Senhor Reitor", no SBT. Acho que essa minha curiosidade artística reflete até hoje e os diretores sabem que gosto de personagens diferentes. A Lígia, além de diferente, é um ótimo exercício para qualquer atriz.
Por quê?
É necessário se despir de qualquer ar teatral ou pesado, é preciso encontrar a personagem no cotidiano que está no texto. A maquiagem é leve, os figurinos são totalmente usáveis e simples, a emoção precisa estar bem relacionada com a realidade. A simplicidade é algo difícil de se atingir, me exige muita concentração e relaxamento. Em cena, só temos mesmo a troca com o outro ator, não tem qualquer artifício ou penduricalho cênico. Eu li a sinopse e fiquei muito encantada.
Qual o ponto da história que mais chamou sua atenção?
A Lícia parte de um tema totalmente contemporâneo e original para falar sobre a busca do ser humano por suas origens. O assunto é muito complexo, seria uma formação indireta de novas famílias, pessoas geradas a partir de inseminação artificial, com sêmen doado anonimamente, e que decidem se reunir, se reconhecer. É uma movimentação recente e acho muito válido retratar isso na teledramaturgia.


