Existem muitas maneiras de se falar da vida. Em determinadas situações, a melhor é não falar dela de maneira direta, mas das coisas que a cercam. Coisas que dão forma à vida. Conferem a ela um contorno de beleza, um verdadeiro e despretensioso brilho.
Em ''O Menino e a Foca'', livro infantil lançado pela Editora Ática, Michael Foreman faz isso contando a história de uma amizade entre um garoto e uma foca. Fala diretamente de assuntos como nascimento, morte, amizade, processo da vida, ecologia, ciclos da natureza, tempo, deficiência física, crescimento e muito mais. Tudo isso com muita simplicidade.
Tudo começa no dia em que o menino, na companhia do avô, presencia o nascimento de um bebê foca nas pedras da praia. A partir disso, avô e neto passam a observar o dia-a-dia da mãe e seu filhote. Assim, uma amizade tem início. Mesmo quando torna-se independente, o filhote sempre volta ao local para novos encontros.
O tempo passa, o avô morre, a foca tornar-se mãe e o menino vai lentamente abandonando a infância. E a relação que desenvolve com o animal é de uma liberdade invejável, sem sentimento de posse, cada um vivendo em seu mundo. Sem nenhum sentimento de posse, apenas uma constante e sincera aliança. Assim como deveriam ser as relações entre as pessoas.
Em ''O Menino e a Foca'' o personagem é deficiente físico (ou portador de necessidades especiais). Mas isso não é dito em nenhum momento do texto. Sua condição física, seu modo próprio de existir, é tratada com extrema sutileza, delicadeza e naturalidade apenas nas ilustrações. Algo muito difícil de ser encontrado na literatura infantil.
Michael Foreman, ilustrador e escritor inglês, conta a história de um garoto em seu aprendizado através da vida. Por acaso, o menino não consegue andar com facilidade, só isso, nada mais. Uma história que poderia ser narrada fazendo uso de qualquer outro personagem, como um moleque bom de bola. Revela, dessa maneira, de modo indireto e poético, uma imagem de igualdade entre as pessoas.
Serviço:
''O Menino e a Foca'' de Michael Foreman, Editora Ática, tradução de Ruth Salles, 32 páginas, R$ 13,90.

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