Susto na madrugada
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de abril de 1997
Luiz Claudio Oliveira 
Três da manhã. O aparelho de vídeo do velho casarão da Ubaldino do Amaral descansa das aventuras de Clint Eastwood e das histórias empolgantes do diretor italiano Ettore Scola. A luz um tanto fraca reflete-se nos cabelos brancos do escritor. Ele está preocupado em cortar e ajeitar as palavras que começou a escrever num caderno de notas, enquanto tomava uma coalhada com mel em uma mesa de fundo na confeitaria Schaffer, centro de Curitiba. De repente, batidas na porta da frente agitam Topinho, que dorme aos pés do escritor. O cão começa a latir disparando o coração de seu dono.
A caneta suspensa - mais que uma caneta, uma máquina devastadora que não perdoa palavras mal encaixadas ou expressões desnecessárias, uma gilhotina a serviço da literatura. Espera que seja apenas uma brincadeira de adolescentes madrugadores. O silêncio e a expectativa são quebrados com novas batidas, agora mais insistentes. Nova espera e o silêncio só é quebrado pelos latidos. O peixinho no aquário parece mais atento do que nunca. A tensão aumenta assim como o vigor das pancadas desferidas na velha porta.
Pensa então que não poderiam bater na porta sem passar antes pelo portão gradeado. Significa que já estão em seu quintal. Seria o caso de chamar a polícia, mas isto causaria um alvoroço na vida do escritor que prefere ser assassinado a ter que se envolver com policiais e jornalistas. Abre a porta com medo, mas decidido.
Um homem magro, palitinho chupado pelo canto esquerdo da boca, bigodinho começando a ficar branco e muita brilhantina sobre o cabelo encara-o por trás de olheiras profundas. Os dois não falam nada por um instante e ficam apenas a se admirar. Topinho com as orelhas levantadas cheira o estranho de longe.
- Pois não? - É o máximo que o escritor consegue dizer, esquecendo que são três horas da manhã e que aquela pessoa à sua frente pulou o muro para bater à sua porta.
- Não vai me convidar pra entrar? - Disse o homem que também não conseguia disfarçar uma certa surpresa e admiração.
O escritor hesita, tem vontade de fechar a porta na cara do estranho e voltar às palavras, mas alguma coisa naquilo lhe parece familiar e um escândalo a essa hora era tudo o que ele não queria. Permanece imóvel, olhando, simplesmente olhando, como faz quando está na Schaffer, ou subindo a Amintas depois de sair do Chaim. Aquilo não é real. Talvez esteja dormindo. Tenta piscar forte para ver se acorda, mas ao abrir os olhos encontra-se de novo com a cara pálida à sua frente que insiste:
- Então, posso entrar? Quero falar com você.
O você soou com indesejável intimidade, intrigando ainda mais o escritor. Ele pensa que seria melhor se fosse um assalto. Os bandidos entrariam à força, o amarrariam e levariam o que quisessem. No máximo lhe dariam umas coronhadas, mas tudo se resolveria em poucos minutos e ele ainda poderia aprender com a fala deles. Diante do enigma de bigodinho, sem saber o que fazer, a curiosidade veio vindo lá do fundo e começou a tomar conta da mente do morador mais ilustre do Alto da XV. Ainda meio desorientado, ele abre a porta e faz um sinal.
O estranho entra e com um risinho sarcástico começa a examinar a sala com seus sofás de napa, mesinha com toalhinha de crochê, balcão de madeira escurecida dando apoio a biscuits de porcelana, pintadas de azul. Mesmo sem autorização, escarrapacha-se na poltrona e estica os pés sobre uma cadeira. Puxa do bolso do paletó amassado uma carteira de cigarro Belmont sem filtro. Sem tirar o palitinho da boca, começa a chupar a fumaça. A chama da ponta ilumina seu dedo amarelado e a unha suja. Topinha cheira-o mais de perto e volta para sua caminha, desinteressado.
Meio cigarro depois, o escritor decide quebrar o silêncio e pergunta:
- Quem é o senhor e o que quer?
- Faz tempo, não é? - Limita-se a dizer o intruso.
- Eu lhe conheço? - A pergunta sai ao mesmo tempo que chega o arrependimento por tê-la feito. Vai esticar a conversa e essa situação não se resolverá. Por que não acordo logo?, pensou.
- Já se esqueceu de mim? - Devolve-lhe o invasor aumentando a tortura.
O tom de voz, o olhar, o risinho sarcástico, o jeito da pergunta, como quem a faz à menina ao telefone, tudo parecia familiar ao dono da casa que no entanto recusava-se a decifrá-lo.
- Também faz tanto tempo que não me usa.
Que estranha colocação do verbo usar, como se pudesse dispor do estranho quando bem entendesse. Uma coisa muito sexual para o momento. Isso desconcertou ainda mais a situação. Seria um assédio, uma agressão sexual?. Não, não teria cabimento e o inoportuno nem tem físico para isso. Parece um tísico.
- Olha professor...
- NÃO SOU PROFESSOR....- interrompeu, agressivo.
- Tá bem, mestre, não precisa ficar nervoso, foi só um jeito de falar. É que eu queria ser chamado de volta pelo senhor.
- Como assim? Não estou entendendo. Eu lhe conheço?
- Claro! Claro que conhece. Foi o senhor que me criou. E depois me abandonou, Eu queria voltar. Sei que já não sou o mesmo, mas era tão bom, tantas aventuras. Foi a melhor fase da minha vida. Agora, estou esquecido, só apareço em vagas lembranças. Queria estar mais presente, mais ativo, ser o dono da farra. O fio condutor, como falavam no jornal. O senhor só dá bola pras menininhas, as coitadinhas, as cabritinhas. Botou uns caras brutos no meu lugar. Eu quero voltar.
Ainda mais nervoso, sem espantar de todo a dúvida, mas quase alegre pelo reencontro, o escritor, com voz trêmula, tenta dizer:
- Você é ... você é o ...
- Nelsinho, ao seu dispor.


