SUSPEITA DE PLÁGIO PÕE VARGAS LLOSA NA BERLINDA
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de setembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
O escritor peruano, acusado de plágio pelo livro A Festa do Bode, encabeça no momento uma lista de prováveis copiadores da qual nem Shakespeare escapa
Nem os grandes escapam da tentação do plágio. De Aristófanes a Shakespeare ou de Lamartine Babo a Tom Jobim, o elenco de nomes insuspeitos que ostentam ficha suja no tribunal universal dos direitos autorais daria até para aliviar a culpa dos copiadores menores.
A prática é condenável e, dependendo do humor do plagiado, pode causar danos no bolso e na reputação dos tungadores menos cuidadosos. O escritor peruano Mario Vargas Llosa é um que está sofrendo dores de cabeça desde que publicou o romance A Festa do Bode, lançado esta semana no mercado brasileiro sob a suspeita de conter trechos semelhantes a de livros já publicados.
O autor ambienta a história durante a ditadura (1930-1961) de Rafael Trujillo na República Dominicana. A polêmica foi levantada por dois jornalistas, o hispano-peruano Bernard Diederich e o dominicano Lipe Collado, que acusam Llosa de ter se apropriado de partes de obras suas para escrever o romance.
Do primeiro, o autor teria surrupiado dados do livro-reportagem Trujillo: La Morte del Chivo, publicado em 1978. Do segundo, decalcado a atmosfera e a construção de um personagem de Después del Viento, de 1996. Vargas Llosa tem negado as acusações. A Festa do Bode foi lançado em março na Espanha e há poucos dias nos Estados Unidos. No mês que vem, Collado irá a Nova York para exigir uma retratação pública do autor.
O barraco, contudo, só acrescenta mais um capítulo à longa escalada das pilhagens inconfessáveis. Agora mesmo, no Brasil, a professora da Universidade Federal Fluminense Eliane Ganem pôs em questão a originalidade do roteiro da minissérie Aquarela do Brasil, exibida atualmente pela Globo. Segundo ela, a história pode ter sido chupada de um texto de sua autoria deixado há quatro anos na emissora e registrado na Biblioteca Nacional com o título Aquarela do Brasil.
A escritora quer ver seu nome no crédito da minissérie além de pedir indenização, com o que discorda o autor Lauro César Muniz, que garante a idoneidade da obra atribuindo as eventuais semelhanças a meras coincidências. A base do enredo foi criado em 1985. Então tenho como provar que minha história nasceu antes dela declarou ele à imprensa quando o buxixo veio à tona.
No ano passado, foi o filme Mauá, o Imperador e Rei que ganhou matérias pouco lisonjeiras nos jornais deixando o diretor Sérgio Rezende e o produtor Joaquim Vaz de Carvalho com a cara amarrada diante da denúncia de plágio movida pelo jornalista e historiador Jorge Caldeira. Este último alega que o roteiro do longa saiu das páginas de seu livro Mauá Empresário do Império, lançado em 1995 e com mais de 90 mil exemplares vendidos.
Vaz e Rezende, por sua vez, processam Caldeira por danos morais decorrentes da calúnia. Nessa passagem do bate-boca para os tribunais, muitos pecados são pagos com fortunas. O romancista norte-americano Alex Haley foi obrigado a vender o que não tinha para indenizar Harold Coulander de quem contrabandeara trechos do livro The Africans para seu best-seller Raízes.
Se não chegou a passar por esse vexame, o escritor Raymond Carver (1938-1988) é outro que teve seu prestígio abalado depois que um professor da Universidade da Carolina do Norte comparou seu conto Cathedral com o conto The Blind Man (O Cego) escrito pelo inglês D.H.Lawrence. As duas histórias giram em torno de um triângulo amoroso que envolve uma súbita atração entre os dois homens (um deles cego) da relação, deixando a mulher com as pulgas atrás da orelha.
Pegou mal para Carver, especialmente depois que o renomado crítico Harold Bloom meteu o bedelho na celeuma acrescentando que ele não só sugava D.W.Lawrence como bebericava até mais nas novelas de Chekhov. A pirataria literária vem de longe. Estudiosos sustentam que o poeta romano Virgílio nunca escreveu uma linha que não fosse afanada de Homero.
O mesmo dizem do grego Aristófanes, que teria roubado de algum incauto a trama de As Rãs. Os xeretas não livraram nem o inglês Laurence Sterne, autor do clássico Tristan Shandy que tanto influenciou nosso Machado de Assis mas que trazia elementos pinçados aqui e ali de escritores como Rabelais e Robert Burton.
Até sobre Shakespeare, pasmem, já pairou desconfianças sobre uma iluminação ou outra, que seriam tributárias de diversos autores anônimos. De tão recorrente, o plágio ganhou defensores. Anatole France chegou a escrever uma apologia ao fenômeno, seguida 80 anos depois por Jean-Luc Henning que repetiu o gesto publicando a louvação à cópia Faux Héros et Vrais Menteurs.
Mesmo presente em todas as épocas e lugares, não deixa de ser curioso saber que um dia o Palácio do Planalto também abrigou um mico do gênero. Foi elle, o então presidente Collor de Mello quem desfiou como sendo seu um discurso de autoria do ensaísta Carlos Guilherme Merquior, que preferiu deixar pra lá. O mesmo Merquior esteve envolvido nos anos 80 numa rumorosa querela com a professora de filosofia da USP Marilena Chauí, a quem acusou de plagiar o filósofo francês Claude Lefort.
A comunidade intelectual entrou em pânico. Ao ser ouvido pela imprensa, Lefort desqualificou o ataque considerando-o um absurdo. Também no jornalismo, algumas celebridades tiveram o azar de topar com leitores atentos. Em meados da década passada, o redator Pepe Escobar foi desmascarado assinando um artigo sobre o cantor pop David Bowie que havia sido publicado pouco antes na revista Rolling Stone.
Recentemente, o colunista Arnaldo Jabor teve que engolir a pecha de plagiário em duas ocasiões. O curioso é que, em uma delas, foi acusado de copiar passagens de um texto de sua própria autoria. No final do ano passado, outra descoberta: Jabor havia reproduzido frases de um artigo publicado um mês antes no Le Monde Diplomatique tratando de um acordo econômico mundial cuja aprovação diminuiria a capacidade dos governos para regular os movimentos do capital externo e impor limites aos interesses das grandes corporações.
As revelações, todavia, pouco repercutiram fora das mesas de bar frequentadas por seus desafetos.


