LEITURA -

Susan Sontag: a escrita como leitura

Dois volumes de ensaios da autora, “Contra a Interpretação” e “Questão de Ênfase”, recebem novas edições

Marcos Losnak/ especial para Folha2
Marcos Losnak/ especial para Folha2

Segundo a ensaísta Susan Sontag, a inteligência seria uma espécie de paladar. Um tipo de paladar que concede às pessoas a capacidade de “saborear ideias”.

Uma das intelectuais norte-americanas mais populares do século 20, Susan Sontag (1933 – 2004) deixou uma produção ensaística dedicada a investigar as ideias presentes na literatura de escritores de diferentes épocas e de várias as partes do mundo. Parte dessa produção está reunida em dois livros que estão retornando às livrarias em novas edições: “Contra a Interpretação” e “Questão de Ênfase”.




Lançados pela editora Companhia das Letras, os dois volumes não reúnem apenas ensaios sobre literatura, mas também sobre cinema, fotografia, filosofia, música, dança, religião, psicanálise e crítica cultural. Entre as dezenas de escritores abordados estão Roland Barthes, Jorge Luis Borges, Joseph Brodsky, Simone Weil, Juan Rulfo, Jean Paul Sartre, Samuel Beckett e Claude Lévi-Strauss.

Susan Sontag teceu grandes elogios à obra de Machado de Assis em ensaio que integra o livro 'Questão de Ênfase'
Susan Sontag teceu grandes elogios à obra de Machado de Assis em ensaio que integra o livro 'Questão de Ênfase' | Divulgação
 


Um único brasileiro aparece em seus estudos: Machado de Assis (1839 – 1908). No texto “Vidas Póstumas: O Caso de Machado de Assis”, que integra “Questão de Ênfase”, Susan Sontag escreve sobre o romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de 1881. E rasga lenços e sedas.


Para Sontag, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é um daqueles livros que precisam ser redescobertos repetidas vezes. Em suas palavras, “uma obra arrebatadoramente original, radicalmente cética, que impressiona os leitores com a força de uma descoberta particular”.


Susan Sontag revela espanto pelo fato de Machado de Assis não ser mundialmente conhecido como um dos grandes nomes da literatura universal. Demonstra perplexidade sobre o fato de que a obra de “um escritor de tamanha grandeza” possuir um relativo descaso fora do Brasil.


Um de seus argumentos para esse descaso está no fato de Machado de Assis não ser europeu: “Sem dúvida, Machado de Assis seria mais conhecido se não fosse brasileiro e se não tivesse passado toda sua vida no Rio de Janeiro – se, digamos fosse italiano, ou russo, ou mesmo português. Mas o embargo não reside apenas no fato de Machado não ter sido um escritor europeu. Mais notável do que sua ausência no palco da literatura mundial é ter sido muito pouco conhecido e lido no resto da América Latina – como se ainda fosse difícil digerir o fato de que o maior romancista produzido pela América Latina tenha escrito em português e não em espanhol. Jorge Luis Borges, o outro escritor da mais alta grandeza produzido pelo continente, parece nunca ter lido Machado de Assis.”


A editora Companhia das Letras também colocou nas livrarias, no final de 2019, a biografia oficial de Sontag escrita por Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector. Trata-se de uma “biografia oficial” porque após a família da ensaísta ler “Clarice – Uma Biografia”, contratou Moser para escrever a biografia de Susan Sontag.


Benjamin Moser teve acesso ao arquivo pessoal de Sontag, incluindo suas anotações, correspondências e e-mail. E revela que existia angústia, tristeza e insegurança devidamente escondidos atrás da imagem de uma mulher forte intelectualmente e potente publicamente. A homossexualidade sublimada através de um casamento na juventude também é retratada.


Autora de outros volumes de ensaios como “A Vontade Radical” e “Sob o Signo de Saturno”, Sontag defendia que escrever é a arte da leitura: “Escrever é, por fim, uma série de permissões que damos a nós mesmos para sermos expressivos de determinadas maneiras. Para inventar. Para saltar. Para cair. Para encontrar nossa maneira própria e característica de narrar e persistir: ou seja, descobrir nossa própria liberdade interior. Permitir a nós mesmos continuar a tocar o barco.”


Serviço:

Susan Sontag: a escrita como leitura
 

“Questão de Ênfase”

Autora – Susan Sontag

Editora – Companhia de Bolso

Tradução – Rubens Figueiredo

Páginas – 408

Quanto – R$ 44,90

Susan Sontag: a escrita como leitura
 


“Contra a Interpretação”

Autora – Susan Sontag

Editora – Companhia das Letras

Tradução – Denise Bottmann

Páginas – 392

Quanto – R$ 74,90


Susan Sontag: a escrita como leitura
 

“Sontag – Vida e Obra”

Autor – Benjamin Moser

Editora – Companhia das Letras

Tradução – José Geraldo Couto

Páginas – 704



Quanto – R$ 109,90

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Continue lendo


Últimas notícias