SURREALISMO À SOLTA
SURREALISMO À SOLTA Mistura de humor, invenção e absurdo, Quero Ser John Malkovich - que estréia hoje em Curitiba - é original mas não se sustenta Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha2 Exibido hors-concours no Festival de Veneza do ano passado, esta comédia estréia com jeito de limiar de século e desde logo se candidata a cult por sua matéria-prima extravagante, surreal, alguma coisa assim entre o Brazil de Terry Gillian e o Big Lebowski dos irmãos Coen. Quero Ser John Malkovich (veja a programação de cinema na página 5) tem um argumento absolutamente fantástico. John Cusack é Craig, um talentoso artesão que cria marionetes e se apresenta com elas nas ruas. Sem ter onde cair morto, é casado com Lotte (Cameron Diaz, irreconhecível como dona de casa desleixada). Mas acha que do jeito que as coisas estão não dá para continuar. Buscando trabalho, Craig vai se empregar como arquivista num estranhíssimo escritório, que fica no sétimo andar e meio de um edifício. Entre outras bizarrices, ele descobre uma miniporta com uma escadaria que leva diretamente ao interior da cabeça de... John Malkovich, sim, o próprio, o ator famoso. Na pele de John Malkovich, Craig ou qualquer um que viaje pela passagem secreta vai ter quinze minutos de fama, e depois será despejado na periferia de Nova Jersey. O entra-e-sai é intenso. Aos 29 anos, o diretor Spike Jonze, aliás Adam Spiegel, estréia no longa-metragem depois de construir uma carreira meteórica criando spots publicitários e videoclipes. Com este roteiro de Charlie Kauffman, sem dúvida original (e com possiblidade de Oscar), Jonze deita e rola numa espécie de alucinante tobogã visual. O filme diverte até por volta dos 50 minutos, com seu habilidoso jogo de extravagâncias, por sua assombrosa capacidade de prestidigitação, na habilidade em manipular desordenadamente informações metafísicas, psicanalísticas, ontológicas, de ficção científica, de comédia clássica. Seria um média metragem perfeito. Assim como ficou, depois de uma hora, é insustentável e repetitivo. E também não se justifica como possibilidade de abertura para um cinema que está por chegar.





