Quando um programa como ‘‘Os Normais’’ alcança bons números no Ibope, há sempre uma certa perplexidade. Isso porque, nos últimos tempos, instalou-se no Brasil a crença de que só porcaria dá audiência. A ponto de os próprios profissionais envolvidos em produções de qualidade ficarem receosos na hora de apostar. Tanto que o programa encabeçado por Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres teria, a princípio, apenas 12 episódios. Mas o ‘‘surpreendente’’ reconhecimento da qualidade do humorístico, por parte da ‘‘plebe ignara’’, fez com que a Globo decidisse dar uma vida mais longa ao programa – afinal, são 26 pontos de média na mesma noite de sexta-feira em que o ‘‘Garotas do Programa’’ patinava em até 12 pontos. Ir ao ar na sexta-feira foi uma desculpa usada no fracasso do humorístico feminino.
‘‘Os Normais’’ foi realmente uma boa sacada – talvez a melhor da programação da Globo em 2001. Com edição ágil e compacta, linguajar coloquial e inovador, mostra reações extremadas dos personagens em situações corriqueiras e cotidianas, mas de forma crível. O jogo dramático proporcionado pelo casal Rui e Vani também é muito rico, já que os personagens de Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres incorporam as piores características que um sexo vê no outro. Ou seja: Vani é uma mulher estressada e insegura, que quer compromisso a qualquer preço. Rui é um sujeito galinha e cínico, que foge do compromisso o tempo todo.
Outro aspecto interessante é que os dois contracenam o mínimo possível. Em geral, as tabelinhas são feitas com convidados especiais, muito bem explorados pelos autores do projeto, Alexandre Machado e Fernanda Young. E como o programa é bom, é natural que outros atores do mesmo quilate façam fila para participar de algum episódio. Nomes como Cláudia Abreu, Débora Bloch, Beth Gofman, Otávio Muller, Eliane Giardini e Regina Casé já gravaram com Luiz Fernando e Fernanda Torres. E todos acrescentaram muito brilho aos episódios.
Luiz Fernando, aliás, sabe como ninguém trabalhar em duplas. Já atuou ao lado da própria Regina Casé no memorável e itinerante ‘‘Programa Legal’’. No teatro, Luiz também atuou por muitos anos com a própria Débora Bloch e mais recentemente na tevê como Pedro Cardoso no ‘‘Vida Ao Vivo’’. Só que o programa acabou porque os dois se desentenderam – Pedro Cardoso deve ter sido o único sujeito do planeta que conseguiu brigar com Luiz Fernando Guimarães.
Justamente para não cair na mesma rotina que se criou no ‘‘Vida ao Vivo’’ que ‘‘Os Normais’’ deve sair providencialmente da grade por algumas semanas, enquanto estiver no ar a minissérie ‘‘Presença de Anita’’, de Manoel Carlos. A produção retorna no final de agosto. Esta tendência de fazer várias estréias ao longo do ano, já foi aprovada pelos próprios atores. ‘‘Assim não fica mais aquele negócio chato de como era antigamente: de estrear tudo no início do ano’’, imagina Luiz Fernando. O ator não esconde o entusiasmo com o programa. Tanto que acabou até saindo antes mesmo de gravar a próxima novela das sete de Silvio de Abreu, onde estava escalado para viver um falso personal trainner. Fernanda também adiou outros projetos para se dedicar exclusivamente ao programa ao longo do ano.
Além de ser um humorístico semanal, outra razão que está motivando os atores é a maneira que a produção vem sendo dirigida por José Alvarenga Jr. O recurso de fazer os atores olhando e falando com a câmara está funcionando muito bem. Isto faz com que os personagens do programa tenham uma certa cumplicidade com o telespectador. Invariavelmente, boa parte do público acaba se identificando com as situações. Outro programa que também segue a mesma linha é ‘‘A Grande Família’’, que comprova que o velho e o bom humor ainda está presente na veia dos atores brasileiros. Na verdade, tanto ‘‘Os Normais’’ quanto o humorístico de quinta-feira são provas de que ainda há espaço na tevê aberta para fazer produções populares com alta qualidade. Basta ter criatividade e bom gosto para não cair nas receitas fáceis e apelativas para conquistar audiência. Nessa armadilha, definitivamente, ‘‘Os Normais’’ não caiu.

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