Curitiba - O Charada Brasileiro está em ação há muito tempo, mas só agora foi que a mídia resolveu incensá-lo, depois de sua aparição na Casa dos Artistas. A química criada entre a novidade do programa e o jeito despojado do Charada, colocaram o roqueiro Supla nas alturas. Tanto assim que até a poderosa Globo relançou pela Som Livre o disco ‘‘Motocicleta Endiabrada’’. ‘‘Achei hilário, muito engraçado’’, diverte-se o músico.
O músico conversou recentemente com um grupo de jornalistas antes de sua apresentação na Caribean, casa noturna de Caiobá. Com experiências acumuladas através dos anos, Supla não se deixa levar com facilidade pela rede da fama. Melhor do que ninguém ele sabe como trabalhar com a exposição. E não tem ilusões sobre esse imprevisto amor do público.
Depois de ter vivido alguns anos em Nova York, perseguindo a carreira de roqueiro, ele agora assusta-se com as presumíveis 700 mil cópias do CD ‘‘Charada Brasileiro’’. O sucesso não é motivo para ficar olhando o infinito ao som da caixa registradora.
‘‘As profissões de músico e ator são as mais difíceis’’, diz com propriedade de quem ralou e rala ‘‘até hoje’’. ‘‘Você tem que ir atrás do que quer; e não pode entrar nisso só pensando em ganhar dinheiro. Tem que amar o que faz e saber que vai sofrer. Se acontecer, é sorte. Porque tudo na vida precisa de sorte’’.
Como todo mundo sabe a idéia de Supla era participar da Casa dos Artistas o suficiente para conseguir publicidade para seu disco independente, vendido nas bancas de revistas a R$ 9,90. Ele imaginava ficar uns 15 dias interno e ganhar a rua, mas na segunda semana Sílvio Santos coloca o CD no ar e anuncia que já tinha vendido milhares de unidades. ‘‘Então tá bom aqui’’, convenceu-se. Alvo das capas das revistas, diverte-se: ‘‘É muito engraçado isso’’.
Fãs de última hora até podem imaginar que a popularidade do astro é inédita, mas ele garante que anos atrás, quando liderava a banda Tokyo, ‘‘foi uma explosão muito grande também’’. Acontece que naquele tempo ‘‘não tinha o mesmo número de veículos de mídia que tem hoje em dia’’. O cenário comandado por grupos como o Kid Abelha, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso ‘‘visualmente não tinha nada’’. De repente surgiu nos palcos um roqueiro com os cabelos tingidos de branco, por influência direta de um surfista.
‘‘Prefiro ter um visual assim do que ser igual a todo mundo. É uma forma de me expressar’’, explica o moço, sem qualquer ranço. Exigente, ele é quem desenha seu figurino. ‘‘Você acha que é quem? Um cara de gravadora que chegou e disse você vai ser assim ou assado?’’, continua provocativo. Gaba-se por ser o autor de sua própria história. ‘‘Não preciso que me digam para fazer isso ou aquilo. Eu que bolo meu marketing; e todo mundo comprou’’.
Pois bem, apesar da declarada ciência em trabalhar a imagem, o artista afirma que ‘‘o Supla é o que eu sou, e eu sou um personagem; eu sou essa pessoa mesmo’’. Ou seja, alguém multifacetado. ‘‘Um tipo cartoon mesmo, tipo desenho animado e eu gosto disso’’. Animado, não se importa em selecionar os palcos onde se apresentar. Esteja onde estiver, estará por inteiro: ‘‘Num show punk, num hardcord, no Ratinho, Raul Gil. Não me importa. Sou eu em qualquer lugar’’.
Sucesso, porém, não é somente areia movediça. Tem um lado bom que é inegável, como poder contar com um som de alta qualidade nos shows. É o melhor de tudo. Na esteira vem convites para propagandas e daí um dinheiro a mais para engordar o caixa. O cantor planeja:‘‘Tendo mais dinheiro vou começar a fazer coisas beneficentes. Quando começar a ganhar, porque ainda não ganhei.
O que seriam essas coisas beneficentes? Shows com a bilheteria revertida para hospitais, é um exemplo. ‘‘Você não ganha nada, eles pagam só os músicos e o dinheiro que entrar vai para um Hospital de Câncer, ou uma coisa de Aids, ou algo do gênero’’. Supla fala também do carinho do público, que é ótimo, mas agregado a isso vem a perda da privacidade. Reconhece que este é o preço a ser pago, mas o assédio não vai impedí-lo de continuar indo aos estádios de futebol, especialmente quando o Santos F.C. jogar. É o time do seu coração: ‘‘Pertenço à torcida do Santos desde meus 14 anos. Vou na arquibancada e para mim não muda nada’’.
Depois de fazer ginástica para pagar o aluguel do apartamento onde morava em Nova York, agora divide uma casa com o pai, o senador Eduardo Suplicy, em São Paulo. Cada qual corre para um lado, em busca de interesses diversos. ‘‘A gente quase nunca se vê. Quando me acalmar um pouco dessa loucura toda que está acontecendo, vou ver o que fazer’’. O astro vai com calma nas decisões: ‘‘Não tenho problema de rebeldia’’. Essa tranquilidade ele credita aos pais ‘‘gente fina. Sempre foram muito legais comigo’’.
É claro que o nome de Bárbara Paz entrou na roda, mas foi assunto passageiro: ‘‘A gente ficou dando uns beijos, ficamos debaixo do edredon se divertindo. Somos amigos; adoro ela’’. Ainda sobre a Casa dos Artistas, Supla achou estranha a volta de Alexandre Frota ao convívio. ‘‘Até falei com o Sílvio Santos, mudou as regras agora? Aí ele me cortou rapidinho’’. Passado o mal-estar veio a calmaria. ‘‘Vou te falar: fiquei emocionado quando vi a mãozinha dele, de esmalte, segurando o meu CD. O homem que segura o Baú... achei surreal aquilo, muito bom’’.
Questionado sobre sua condição de referência para os jovens, Supla não aceita o modelito: ‘‘Não quero ser referência para nenhum jovem. As pessoas gostaram de mim pelo que sou. Cada um segue seu negócio, e essa é a referência: você ter sua própria postura, sua personalidade, não ficar seguindo ninguém. Influência é uma coisa, agora você ficar seguindo uma pessoa... Eu sou mais um cara que está na batalha e o meu exemplo é esse – você seguir você. Seguir seu instinto, suas coisas.’’

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