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Laurentino Gomes lança 'Escravidão', primeiro volume de uma trilogia sobre a triste história da escravidão do Brasil
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de setembro de 2019
Laurentino Gomes lança 'Escravidão', primeiro volume de uma trilogia sobre a triste história da escravidão do Brasil
Marcos Losnak 
As naus carregadas de escravos negros que deixavam a costa da África com destino ao Brasil durante o século 16 e 19, sempre tinham companhia marítima. Dezenas de tubarões acompanhavam de perto os navios durante toda a travessia pelo oceano Atlântico, uma jornada que durava aproximadamente dois meses.
Os peixes haviam aprendido, ao longo de décadas, algo sinistro. Sabiam que poderiam se alimentar de corpos de escravos lançados ao mar diariamente. Homens e mulheres falecidos durante uma viagem desumana e jogados ao oceano.
O Brasil foi o território que mais recebeu escravos negros nas Américas ao longo de 350 anos de colonização portuguesa. Historiadores estimam que aproximadamente 5 milhões de cativos africanos desembarcaram no país através de navios negreiros.
Segundo o historiador norte-americano Joseph Miller, de cada dois africanos capturados no interior da África, apenas um chegava vivo para embarcar nos navios. Durante a viagem, aproximadamente 20% morriam e eram lançados ao mar. Em solo brasileiro, 5% morriam antes de serem leiloados. E mais de 20% morriam nos três primeiros anos nos locais de trabalho.
Esses são alguns dos dados presentes no novo livro do jornalista paranaense Laurentino Gomes, “Escravidão – Volume 1”, que acaba de ser lançado pela editora Globo. A obra integra a nova trilogia do escritor maringaense que apresenta a história da escravidão no Brasil.
O primeiro volume abarca o período do primeiro leilão de escravos realizados em Portugal até a morte de lendário Zumbi dos Palmares em 1695. O segundo volume, previsto para ser lançado em 2020, abarca o período da descoberta de ouro em Minas Gerais à chegada da corte de Dom João no Rio de Janeiro. O terceiro volume, que deve ser lançado em 2021, engloba o período da Independência do Brasil à promulgação da Lei Áurea.
Logo nas primeiras páginas de “Escravidão – Volume 1”, Laurentino Gomes esclarece que a Coroa Portuguesa atuava no comércio de escravos africanos meio século antes do navegador Pedro Álvares Cabral aportar na costa brasileira. Em 1444, na cidade portuguesa de Lagos, foi realizado o primeiro leilão de cativos capturados na costa africana do Atlântico. O nobre Dom Henrique foi o primeiro grande traficante português de escravos. E entre os investidores desse novo e lucrativo negócio, não estavam apenas nobres portugueses. Estavam católicos e judeus. Bispos e padres. Ingleses, franceses, espanhóis e holandeses.

A história da escravidão no Brasil é uma história de sofrimento, dor, tortura, humilhação, usurpação, trapaça, ambição, vingança, desprezo, autoritarismo, desgosto, morte, tormento, covardia, flagelo, amargura, guerra e muito mais. Tudo para gerar riqueza. Ou seja, acima de tudo é uma história econômica. Uma intrincada história de poder. Uma história complexa que qualquer simplificação pode ser pautada pela ignorância.
A proposta de Laurentino não está em realizar o trabalho de um historiador, mas um jornalista que apresenta fatos e visões de historiadores. O resultado é uma narrativa acessível a qualquer leitor num processo de popularização da História do Brasil sem a complexidade dos estudos acadêmicos.
Nascido na cidade de Maringá, em 1956, Laurentino Gomes ganhou projeção nacional quando em 2007 quando publicou “1808”, livro-reportagem sobre a fuga da corte portuguesa para o Brasil. O livro vendeu mais de 1 milhão de exemplares. Em seguida vieram “1822”, sobre a Independência do Brasil, e “1898”, sobre o fim da monarquia e a Proclamação da República. Best-seller nacional, a trilogia vendeu quase 3 milhões de livros.
Em “Escravidão – Volume 1”, o autor possui a prudência de alertar como o anacronismo e o revisionismo histórico podem comprometer o entendimento lúcido dos fatos, episódicos e documentos históricos. Em suas palavras, “é quase impossível entender o Brasil de hoje sem conhecer as nossas raízes na África”.
Um exemplo está na fala do diplomata pernambucano Joaquim Nabuco (1849 – 1910), que afirmava que não basta abolir a escravidão no país, era necessário “acabar com os traços da escravidão na sociedade brasileira”. Em outras palavras, seria necessário educar os ex-escravos, seus descendentes, lhes dar terras, oportunidades, incorporá-los à sociedade brasileira na condição de cidadãos de pleno direito, com iguais oportunidades. Para Laurentino, o Brasil não fez isso: “O Brasil aboliu a escravidão e abandonou seus escravos e a sua população negra à sua própria sorte.”
Historicamente a economia sempre falou mais alto. Mesmo sem emitir um único grito de dor, sem um único sussurro de sofrimento.

Serviço:
“Escravidão – Volume 1 – Do Primeiro Leilão de Cativos em Portugal Até a Morte de Zumbi dos Palmares”
Autor – Laurentino Gomes
Anotações – Alberto da Costa e Silva
Editora - Globo
Página – 504
Quanto – R$ 49,90


