Superman às avessas
Seja no cinema ou na televisão, o anti-herói impera no Brasil carregando as incertezas e defeitos do homem comum
Arquivo FolhaGrande Otelo interpreta Macunaíma, um anti-herói criado por Mário de AndradeKadu Moliterno e André de Biase: gírias e esportes radicais preenchiam Armação Ilimitada, sucesso nos anos 80Fernando Miragaya
TV Press
Em todo o mundo, a sociedade, a mídia e o marketing se unem para criar heróis em diversas áreas, como no esporte e na política. Na televisão brasileira não podia ser diferente. Só que, em vez do herói engomadinho, bonito e imbatível, o Brasil costuma mitificar tipos mais inusitados. Macunaíma, personagem irreverente de Mário de Andrade e imortalizado no cinema por Grande Otelo, abriu o leque para a televisão criar heróis com perfis nada ortodoxos. Juba e Lula da Armação Ilimitada, o atrapalhado detetive Ed Mort e Pedro e Bino, de Carga Pesada, são típicos heróis tupiniquins. Agora esta galeria ganha o reforço de Suzana Alves, que de lasciva sadomasoquista de plantão no programa H vira heroína em As Aventuras de Tiazinha, seriado que a Band pretende estrear na segunda quinzena deste mês. O brasileiro gosta de heróis fora dos padrões, por isso vamos levar o seriado mais para o humor, explica Luiz Paulo Simonetti, diretor do programa.
Os heróis brasileiros têm um perfil peculiar. Nenhum se parece com o Superman. Não são imbatíveis nem estão acima do bem e do mal. Têm defeitos e fragilidades expostas e, acima de tudo, são irreverentes e engraçados. O herói é a expressão de uma necessidade psicológica das pessoas e, aqui no Brasil, o público se identifica com o herói retratado como uma pessoa comum, define Ferreira Gullar, um dos criadores da dupla Pedro e Bino, os populares caminhoneiros do seriado Carga Pesada, interpretados por Stênio Garcia e Antônio Fagundes. O sucesso da série foi tamanho que os dois atores estudam a reedição da dupla, quase 20 anos depois do final do seriado.
O Brasil precisa de heróis irreverentes. Somos um país miscigenado, defende Kadu Moliterno, o Juba do Armação Ilimitada, que se transformou em uma espécie de ídolo juvenil. Juba incorporava bem o estilo herói nacional. Ao mesmo tempo em que brigava com bandidos e se destacava em esportes radicais, era mulherengo, falava gírias e tinha uma postura de garotão de praia. Era um herói irônico e brincalhão, que representou a juventude, valoriza Kadu, que atualmente interpreta o insosso Figueira de Suave Veneno.
Mais do que simples heróis, muitos personagens também se tornaram formadores de opiniões, além de servirem como peças ilustrativas para críticas sociais. Bons exemplos são a socióloga Maria Lúcia Fonseca, interpretada por Regina Duarte no final da década de 70 no seriado Malu Mulher, e a doutora Cris de Mulher. Ambas representam os anseios e dúvidas das mulheres da época. Tanto que Regina conta que era parada na rua por mulheres pedindo conselhos sobre divórcio e Patrícia volta e meia é solicitada para uma consulta médica. Eu era considerada quase que um membro da família das pessoas, recorda Regina Duarte. As pessoas acabam vendo neste tipo de personagem uma referência a qual buscam no cotidiano, diz Patrícia.
Mas a Doutora Cris é uma heroína politicamente correta, que chega a irritar de tão certinha que é. Na verdade, são os anti-heróis que mais cativam o público. O Cacá de Amizade Colorida, personagem de Antônio Fagundes, ou o Waldomiro Pena, interpretado por Hugo Carvana em Plantão de Polícia, são bons exemplos. Os dois tinham senso de justiça, ao mesmo tempo em que eram mulherengos e cafajestes. Uma parte da sociedade não suporta muito o herói idealizado. A tendência é pelo homem comum, acredita Ferreira Gullar.
Só que a televisão brasileira também já soube importar e adaptar formatos bem americanos de heróis. Uma das primeiras tentativas foi o Capitão Asa. Sucesso estrondoso entre as crianças na extinta Tupi nos anos 70, o personagem de Wilson Viana tinha um figurino que lembrava em muito o dos super-heróis enlatados. Outra clara adaptação de séries americanas foi a A Justiceira, exibida pela Globo em 1996. As comparações com a Kate Mahoney do seriado Dama de Ouro eram inevitáveis. Afinal, a protagonista Diana, vivida por Malu Mader, mesclava coragem e uma sensualidade brutal e fria em uma produção recheada de perseguições, tiros e suspense.
Não é apenas a televisão que apresenta heróis tipicamente nacionais. O cinema também costuma importar da literatura brasileira tipos heróicos engraçados e atrapalhados. Macunaíma, Ed Mort, e Policarpo Quaresma mostraram o estilo e o perfil tupiniquim. Macunaíma, criado por Mário de Andrade, dirigido no cinema por Joaquim Pedro de Andrade e interpretado por Grande Otelo, é a melhor representação do anti-herói nacional. Malandro, debochado, mau-caráter e preguiçoso, o personagem compreendia um perfil popular. O brasileiro não encara um herói clássico. Ele tem de ser condicionado aos trópicos, acredita Paulo Betti.
O próprio ator interpretou um exemplo de anti-herói, o detetive desastrado Ed Mort, criado por Luís Fernando Veríssimo e levado ao cinema pelo diretor Alain Fresnot. Na verdade, o personagem é uma caricatura dos imbatíveis e competentes investigadores do cinema norte-americano. Ele tenta imitar padrões heróicos, define Paulo. Para Paulo Thiago, que dirigiu Policarpo Quaresma, baseado na obra de Lima Barreto, os heróis sustentam a dramaturgia. O ser humano tem necessidade de ver alguém que resolva os problemas para ele, teoriza o cineasta.





