A senhora no palco foi ganhando os convidados aos poucos. E de música em música, Leny Andrade, como não poderia deixar de ser, foi ovacionada no final da apresentação que fez em Londrina, na última sexta-feira. O grande mérito é que a intérprete não abriu mão da qualidade e se deu ao direito de não apresentar um show previsível, burocrático mesmo em canções saturadas como ''As Rosas Não Falam'' (Cartola) ou ''Olha'' (Roberto-Erasmo Carlos), optou por sinuosos caminhos harmônicos. Quase duas horas de espetáculo que teve como brinde a participação especial do cantor Zé Luiz Mazziotti, com o qual duelou em duas canções e, claro, mostrou a supremacia de quem há mais de 40 anos se impôs como uma refinada artista brasileira. O show da mais conhecida intérprete do Brasil no exterior, ou ''The First Brazilian Jazz Singer'', fez parte do Royal Golf in Concert, projeto cultural da Teixeira & Holzmann Empreendimento Imobiliário.
O mais impressionante da apresentação é que Leny Andrade não subestimou a inteligência do público. Em outras palavras, apresentou um repertório sofisticado ao ponto de privilegiar canções não muito conhecidas e agradar a grande maioria. Acompanhada de quinteto entrosadíssimo, a cantora crescia cada vez mais no palco. Nos três primeiros números, o vozeirão explorava as notas mais graves. A partir de ''Lugar Comum'' (João Donato - Gilberto Gil), Leny mostrou toda a versatilidade vocal e... meu Deus, como essa mulher canta!!
Baden Powell, Tom Jobim, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Rosa Passos foram alguns dos compositores pinçados por Leny Andrade. Entre as canções, comentários breves ou prolongados alguns com tiradas engraçadas. Lá pelas tantas, uma autocrítica irretocável: ''Eu gravei poucos discos, mas todos com boa qualidade. Nunca me preocupei com as paradas de sucesso. Eu sempre quis qualidade''. Poucos podem vir a público fazer uma declaração dessas sem soar pedante ou pretensioso. Leny pode! Aliás, deve!
Um dos momentos mais bonitos foi o tributo que rendeu a Elizeth Cardoso, ''uma entidade, uma verdadeira diva'' que, como confessou, sempre lhe serviu de referência tanto na vida artística como pessoal. E com Zé Luiz Mazziotti cantou ''Meiga Presença'' (Otávio de Morais-Paulo Valdez) e...minha Nossa Senhora, que mulher é essa capaz de resgatar com reverência e personalidade um dos grandes sucessos daquela que, como todo louvor, era chamada de ''divina''?.
No entanto, nem mesmo toda a elegância em cena conseguiu calar a boca de um grupo de pessoas mal educadas que se achou no direito de competir com ela. Sim, sempre haverá elegantes somente por fora e ávidas pura e simplesmente por um oba-oba social. Desconhecem que aquela senhora no palco conquistou prestígio no exterior e se apresentou em mais de 70 festivais de jazz no mundo todo. E aí, quando Rosa Passos, outra grande estrela da MPB, deixa o palco e passa um sermão como fez o grupinho de hienas volta para casa cheio de dodóis, com ar de ''maria-ora-veja''. Ainda bem que, prevaleciam pessoas e mais pessoas de fato interessadas no show, em Leny Andrade mais especificamente. É o tal negócio: se sabem, ou julgam saber, o que vão ver e ouvir, por que tais hienas saem da toca?
A superioridade de Leny se sobrepôs a tais imprevistos. Mesmo que no show intitulado ''Bossa, Swing e Bolero'', tenha ela esquecido de cantar boleros. Portanto, Leny Andrade fica devendo outra visita a Londrina. Que seja o mais breve possível para que todos possam, mais uma vez, apreciar a grandiosidade musical dessa senhora cantora que insiste em não aceitar o rótulo de diva.

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