Injusta é a fama de que o Paraná não tem litoral. O litoral do Paraná, embora estreito em relação a outros estados e além de suas praias mais conhecidas, possui um dos cinco ecossistemas mais notáveis do globo terrestre, com Mata Atlântica ainda intocada, cadeias montanhosas, praias para todos os gostos e extensos canais cobertos por manguezais, com toda sorte de crustáceos, moluscos e peixes de vários tipos e tamanhos. Um dos lugares mais ricos em flora e fauna do mundo incrustado dentro do recuo geográfico que parece formar uma boca, na ponta do estado, um mar redondo como chamavam os índios carijós: Baía de Paranaguá.
É justamente nesse ecossistema que podemos perceber onde a vida tem início: a folha da árvore que cai no córrego soltando tinta, mudando a cor da água doce, apodrecendo, sendo atacada por larvas depositadas por insetos, que são comidos por pequenos moluscos, presas que são de outros crustáceos, devorados por pequenos peixes, que são alimentos de aves e peixes maiores e de outros e outros, pássaros, bichos, insetos e até da própria flora que se alimenta da decomposição orgânica, até chegar ao mangue, daí ao mar e ao fundo do mar. Uma frágil cadeia em equilíbrio, nas mãos do homem para continuar preservada ou ser destruída, se não houver um planejamento racional de uso.
Quem quiser conhecer um pouco dessa maravilha, pode pegar a embarcação marítima saindo de Paranaguá, passando pela Ilha das Peças e chegando a Guaraqueçaba, em uma bela viagem de aproximadamente três horas. Ou então contratar um barqueiro e circular pelas ilhas próximas que são deslumbrantes. Entre elas se destacam a citada Ilha das Peças, a Ilha do Mel e a Ilha de Superagui. Foi para lá que seguimos viagem, depois de parar nas ‘‘Peças’’ com o barco de linha e contratando um pescador para nos levar em sua voadeira (lancha). Meia hora de emoção e aventura perto da costa, em mar aberto, fazendo a travessia se parecer com um passeio por um desses brinquedos de parque de diversão, em que a gente se sente um Indiana Jones, embora morrendo de medo.
Mas esse foi o único susto. A vila de Superagui fica entre o canal e o mar, tendo ao fundo uma imensa floresta de Mata Atlântica. Habitada por um povo simples e hospitaleiro, a comunidade inteira não possui mais do que 1.000 habitantes, em sua grande maioria nativos descendentes de francos-suíços. Apesar de pequena, o potencial turístico já foi descoberto pelos moradores de lá, contando com várias pousadas – todas mais ou menos com o mesmo preço e padrão – e até com uma área para camping. Tem até luz elétrica e telefone! Durante o verão alguns pescadores deixam a pesca de lado para se dedicarem aos passeios com os turistas. E não é difícil negociar um barco ou uma voadeira para um bom giro pela região.
Mesmo sendo uma ilha enorme, apenas uma trilha – cheia de bromélias, córregos cor de coca-cola, pássaros canoros, gaviões e insetos incríveis como o marimbondo caçador – liga o canal à Praia Deserta, que tem 34 quilômetros de extensão.
Cuidados básicos são dois: o sol e as mutucas que atacam para valer. Melhor levar um bom repelente, protetor solar e chapéu ou boné. Bom levar também algum material para curativos. No mais, a água do canal é sempre muito tranquila e a praia avança mar adentro.
Passeios de barco são fundamentais e podem ser negociados pagando por pessoa ou pelo passeio. Geralmente são feitos por dentro do canal, sendo que vários pontos podem ser visitados em uma só viagem. Dentre eles destaca-se a trilha que leva ao morro onde moram os índios, cuja vista dá para toda a parte sul da ilha. É bom não fantasiar sobre os índios, que nem nativos de lá são. Dá mais tristeza e revolta ver a condição deles do que outra coisa. Tem também a cachoeira do Saco do Sebuí, o viveiro de ostras e, obviamente, uma parada, ao final da tarde, para tentar ver a vedete da região, na ilha do Pinheiro, que é o Chauá, conhecido também como papagaio-da-cara-roxa, uma espécie endêmica, acostumada a se hospedar somente naquele local.
Pelo canal, botos aos montes, revoadas de pássaros, sobrevôos de gaivotas. Nos manguezais que parecem não ter fim, caranguejos e ostras. E a paisagem de montanhas, que vão alterando suas cores conforme a distância uma das outras e a luz que nelas tocam.
Conhecer a Coroa, um banco de areia fina e fofinha em pleno mar, perto da vila, também é imperdível. De um lado, mar calmo e profundo, do outro, fortes ondas sobre um mar verde e transparente cheio de bolachas-do-mar.

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