Em pesquisa recente sobre a astronômica inflação de custos de produção em Hollywood, atribuída principalmente aos efeitos especiais, o jornal de finanças The Wall Street Journal fixou o orçamento de ''Superman - O Retorno'' (veja a programação de cinema na página 2) em US$ 261 milhões. Outras fontes menos confiáveis elevam esta cifra a incríveis US$ 400 milhões, enquanto a Warner, abalada pelas recentes decepções de bilheteria com ''Firewall'' e ''Poseidon'', nada comenta sobre os gastos oficiais utilizados nesta exumação do homem de aço.
Seja qual for o número final, em qualquer caso parece um excesso quase obsceno para aquilo que se obtém ao final de extensos 154 minutos um produto híbrido, de pálida nostalgia, um super-herói, digamos, descafeinado. A pergunta que insiste em incomodar é por que não se gastou menos nas imagens geradas por computador e um tanto mais na contratação de atores com empatia e talento de verdade.
''Por que o mundo não precisa do Super-Homem''. Este é o título do artigo do Planeta Diário que valeu à destemida Lois Lane o prêmio Pulitzer, recebido no período em que o super-herói esteve ausente. E em que pese alguma façanha déjà vu como a de impedir que um grande jato se choque contra um campo de beisebol, rara cena de ação que justifica a mitologia e o investimento de tanto dinheiro , os habitantes de Metrópolis também não parecem muito excitados com a volta do Super-Homem depois que o personagem passou os últimos anos em Krypton, seu planeta original, descobrindo que o lugar é um cemitério e que ele talvez seja o único sobrevivente. Como sempre, quem está mais aceso é o arquiinimigo Lex Luther, que pretende cobrar algumas contas pendentes.
Considerando que o diretor Brian Singer esteve por inteiro na gênese deste renascimento, já que assina também o argumento, é estranho que exista em cena tão pouca coisa do material que se considera sua marca pessoal na indústria. De seus X-Men sempre se elogiou a habilidade com que ele embaralhou os limites entre Bem e Mal, e sua capacidade de identificação com alguns personagens que, por seus dons e peculiaridades, se sentiam párias, marginalizados num mundo cruel, ignorante e indiferente. É de se supor que o Super-Homem além da ingenuidade e do anacronismo de seus imperativos morais correspondentes à época em que foi criado, 1938 é também um corpo estranho na Terra, um personagem que sofre com a solidão e a anomalia de sua condição.
Mas este Super-Homem de Singer não possui a carga de drama, a angústia existencial e nem a crise de identidade que, por exemplo, consumiam o Batman de Tim Burton, e em menor escala o Homem-Aranha de Sam Raimi. Em vez disso, o desejo bem mais modesto de construir uma família e um espaço junto a Lois Lane e ao filho dela (sim, um filho asmático e débil, uma revelação que o filme nunca explora a fundo). Um vulgar sonho americano que se revela impossível e diante do qual o super-herói se resigna sem maiores conflitos.
O que também se apaga neste Super-Homem é o lado mais pop do personagem. Ele aqui aparece com pálidas doses de humor e alegria, é um ser espiritualmente desbotado. Em substituição, temos a tendência ao folhetim televisivo com ênfase em Lois Lane como a garota que achou que tinha perdido seu amor quando Super-Homem foi para Krypton e por isso agora está casada com outro, a quem respeita, mas não ama. Já que estava no roteiro, esta parte bem poderia aparecer rica em subtextos, uma espécie de variante kitsch com tonalidades de paródia. Ou de cinismo. Mas não foi o caso, e o filme aqui também é vacilante, quando não rígido e solene.
Os inexpressivos e inexperientes Brandon Routh e Kate Bosworth, como nada menos que Super-Homem/Clark Kent e Lois Lane, não alcançam jamais uma mínima proporção da química com a qual o icônico Christopher Reeve e Margot Kidder conquistaram as platéias no final dos 1970 e começo dos 80. E se o assunto é atores, quem leva fácil o laurel é Kevin Spacey, com direito a uma cena com Marlon Brando quando Lex Luthor invade a fortaleza do Super-Homem e ativa mensagem de além-túmulo de Jor-El, pai do herói, material inédito de arquivo que deveria ter sido parte de Super-Homem 2 e que não foi utilizado por disputas financeiras entre Brando e a produção.

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