Super-heróis se adaptam ao século XXI
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
A suposta morte do personagem Johnny Storm, o Tocha Humana do grupo Quarteto Fantástico, da Marvel Comics, acendeu o alerta entre os fãs para uma prática que era comum nos anos 90 mas até então se mantinha velada nessa virada de século: a de executar nomes da primeira linha para alavancar vendas. No entanto, apesar das reclamações sobre tal prática caça-níquel, há uma corrente de pensamento incrustada em acontecimentos recentes que revelam um panorama animador no mercado: as empresas parecem ter encontrado uma forma de manter suas criações vivas no século XXI, também diante de uma nova geração.
Para começar, é necessário lembrar o que afastou os leitores e a maneira como as equipes criativas lidavam com o público, em fuga diante das histórias de super-heróis nos anos 90. Numa tentativa desesperada de chamar a atenção de uma decrescente fatia infanto-juvenil e da audiência madura que cresceu lendo quadrinhos, as editoras mais populares do mundo, as norte-americanas Marvel Comics e DC Comics, decidiram virar o universo de seus principais ícones de cabeça pra baixo.
Foi nessa época então que Superman morreu; o Lanterna Verde Hal Jordan, também caiu, voltou como vilão e depois se tornou um fantasma; Wolverine ficou deformado depois de arrancado seu esqueleto de adamantium,; Homem-Aranha ganhou clones; Arqueiro Verde bateu as botas, Aquaman perdeu um braço, enfim... Muita coisa aconteceu somente em prol das vendas, nada em respeito ao leitor, à cronologia ou simplesmente por uma boa história.
Porém, uma revolução foi disparada com o sucesso das adaptações de quadrinhos. O olhar simplista de escritores e diretores de cinema, preocupados com um público mais abrangente, deu espaço para jovens inventivos e cheios de ideias, como os roteiristas Geoff Johns, da DC Comics, e Brian Michael Bendis, da Marvel Comics. Não há indícios de que alguma coisa tenha sido combinada, no entanto, há muitas similiridades no conceito que levou ambos a tornar o universo das revistas mais atraente, até mesmo para novos leitores, e personagens bem definidos, adequados para os tempos atuais.
Como exemplos, basta ligar dois personagens e duas sagas das duas editoras e perceber como as histórias estão seguindo rumos mais orgânicos, seja com sepultamentos ou desaparecimentos. O primeiro é a morte de dois personagens icônicos para ambas as editoras, Capitão América e Batman, para Marvel e DC Comics, respectivamente.
Ambos tiveram soluções um tanto quanto mirabolantes para seus retornos, com viagem temporal, transferência de corpo, entre outras bobagens que, bem escritas, são até aceitáveis, como aconteceu. O importante foi que, com a ausência de ambos, Johns e Bendis conseguiram mostrar ao leitor a importância dos dois e o que os fazem diferentes de tantos outros. Não à toa, hoje existem dois Batmen e dois Capitães América. O público aprendeu a diferenciar cada um, porque os roteiristas conseguiram criar pontos de referência nos núcleos de personagens que, depois de 50 anos, estavam desgastados.
Apesar de estratégias semelhantes, Marvel e DC hoje caminham por estradas diferentes. Com a ''Era de Ouro'', orquestrada a partir de um belo momento na saga ''Invasão Secreta'', a primeira segue reformulando seu universo deixando-o mais coeso a partir do ''reboot'' ou ''timeout'' de alguns núcleos e personagens. A segunda, com ''Brightest Day'' (ou ''No Dia Mais Claro'') revê o conceito de cada criação trazendo todos de volta para deixar os mais fortes e populares em ação neste novo contexto.
O importante, no final das contas, é que pelo menos há realmente uma preocupação maior quando acontece a suposta morte de um personagem, como a de Johnny Storm. Não parece ser mais apenas sobre vendas. E isso já é, criativamente falando, um avanço no grande mercado, que, antes disso, demorou a entrar no século XXI.


