Super-heróis de 'laboratório'
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de julho de 2003
Ruth Helena Bellinghini<br> Agência Estado 
David Banner trabalhava em seu laboratório nos anos 50 quando recebeu uma dose de radiação gama e virou o Hulk. Na mesma época, o estudante de ciências Peter Parker foi mexer com uma aranha, que também havia sido exposta à radioatividade, e virou o Homem-Aranha. Um sem-número de heróis e super-heróis nasceram assim, num laboratório, onde alguém se meteu a bulir com as misteriosas e proibidas forças da natureza. E se nos anos 50 o assustador e incompreensível era o átomo, hoje é o gene.
O pai do Bruce/David Banner que chegou às telas este ano tentou criar um bebê geneticamente perfeito, um prodígio de força. Deu no que deu. Peter Parker foi picado, sim, por uma aranha, mas uma aranha transgênica. Quem também vai reaparecer nas telas, encarnado por ninguém mais ninguém menos que Brad Pitt - exemplar mais-que-perfeito da loteria genética natural -, é o Capitão América, aquele soldado franzininho da 2 Guerra, que toma um soro experimental e se transforma num supersoldado. Quer apostar quanto que, na nova versão, Pitt-América vai ser um prodígio da alta biotecnologia? E que seu arquiinimigo será inspirado na dupla Osama Bin Laden e Saddam Hussein?
A maioria dos super-heróis explora o mito popular de que cientistas são sujeitos esquisitos, praticamente loucos, que vão fuçar no que não deviam, seja a natureza do átomo ou a dinâmica dos genes. E são castigados.
A punição dos super-heróis que tiveram a ousadia de decifrar os segredos da natureza não é menos exemplar: são condenados a esconder de seus amigos, família e, principalmente, de suas amadas, sua identidade secreta. Não existe castigo maior.
Basta ver o inferno que é a vida dos mutantes de X-Men. As pessoas ''normais'' têm medo deles, o governo tenta exterminá-los. O segundo longa estrelado pelos mutantes fez mais sucesso que o primeiro e mereceu. É uma aventura e tanto. Mas, lá no meio da história, numa cena que os produtores classificam de ''tocante'', vem o besteirol cientificóide. O jovem mutante revela aos pais sua condição. A mãe, claro, pergunta se é a culpada. E o veterano Volverine sai-se com a pérola: ''O homem é o portador da mutação.''
Bom, se o homem é portador e o gene se manifesta no filho é porque é dominante (lembra-se dos olhos castanhos e azuis, AA e aa da escola?) Como o pai não é mutante? E por que o outro filho não é? Basta a genética do ensino médio para ver que a ''explicação'' não funciona. Mutações são naturais e simplesmente acontecem. Não são ''culpa'' de ninguém. Mas o que importa não é a ciência, mas a pseudociência. A menção a algo que não se entende direito - a genética - e, portanto, é motivo de desconfiança e medo.
O americano médio padece do mesmo analfabetismo científico do brasileiro médio. Talvez até pior - 45% dos americanos acham que a teoria da evolução é coisa do demônio. Ninguém perdeu o medo da radiação e das forças atômicas porque aprendeu como funcionam, mas porque se acostumou a elas. A radiação dos anos 50 foi aparentemente domada e, em que pesem os acidentes de Three Mile Island e Chernobyl, usinas nucleares integraram-se à paisagem do dia-a-dia nos EUA, na Europa e até em Angra dos Reis. Vai acontecer o mesmo com a genética e a biotecnologia.
Em Hollywood, porém, pouco se cria e quase tudo se recicla. É pouco provável que produtores se lembrem de adaptar para as telas clássicos da ficção científica que abordam temas atualíssimos, como ''Os Filhos de Matusalém'', de Robert Heilein, em que um grupo de seres humanos que vive por séculos tem de esconder sua condição. O mais provável é que telonas e telinhas apresentem uma enxurrada de remakes com aranhas e formigas gigantes, homens que encolheram e derreteram. Todos geneticamente manipulados.


