Não é de hoje. Uma profunda febre revisionista varre os quadrinhos americanos, os comics, desde meados dos anos 80. Temas como política (‘‘Watchmen’’, de Alan Moore), raça e etnia (‘‘X-Men’’), crime organizado (‘‘Demolidor’’), ideologia e nacionalismo (‘‘Capitão América’’), homossexualismo: tudo tem sido tratado, retrabalhado e reintroduzido no universo binário dos super-heróis.
O mundo precisa de super-heróis ou de cidadãos? Essa questão, por exemplo, foi tratada de forma contundente na série Marvels, de Alex Ross, que mostrava a ação dos super-heróis vista do ponto de vista do homem comum, como o dono do bar que foi destruído por um confronto entre o ‘‘Flash’’ ou o ‘‘Tocha Humana’’ e sua luta para reconstruir o lugar. Num mundo dominado por titãs, seres de puro poder, todas as pequenas tragédias são insignificantes - e aí estava o mérito de Ross, em emparelhar essas duas concepções de vida.
O planeta muda e com ele os heróis, para garantirem sua sobrevida junto a novos leitores e novas mídias, como previu Umberto Eco em ‘‘O Mito do Super-Homem’’. Surgidos no limiar do século 20, como uma forma de comunicação maciça que misturava ilustração, literatura, artes gráficas e um pouco também das técnicas narrativas do rádio e do cinema, os quadrinhos têm se eternizado pela capacidade de mudar, e essa é uma de suas grandes qualidades. Hoje, seu grande desafio é popularizar os chamados webcomics, os quadrinhos criados na internet, com regras muito mais flexíveis e artistas dispondo de uma liberdade inimaginável nos tempos de Alex Raymond (‘‘Príncipe Valente’’) ou Jerry Siegel e Joe Schuster (‘‘Superman’’).
Espaço inusual de arquétipos e da criação de uma identidade nacional - como ressaltou Jean Baudrillard no seu livro América -, os comics tornaram-se também uma ponte intertextual da cultura popular contemporânea. A familiaridade que temos com símbolos como o bat-sinal ou o S no peito do ‘‘Superman’’ é inconsciente e ancestral, permeando linguagens e culturas.
Uma das marcas de ‘‘Homem-Aranha’’, megassucesso dos quadrinhos em cartaz nos cinemas do mundo todo, é justamente a discussão que propõe sobre a responsabilidade dos poderosos. Parece um clichê fácil, mas o fato é que as circunstâncias lhe deram peso e contundência.
‘‘Homem-Aranha’’ é um herói nova-iorquino, toda sua mitologia se constrói em torno de bairros e da geografia metropolitana. Seu superpoder, análogo ao de uma superpotência mundial, na metáfora do filme, acarreta também superproblemas e superdilemas. Escolher direito, além de tudo, é o seu maior desafio.
Na série Demolidor (Daredevil), revitalizada por Frank Miller, um herói cego, advogado também de Manhattan, se defronta com um problema maior do que a capacidade de resolução de qualquer super-herói: o crime organizado. ‘‘O Demolidor’’ é fustigado pelo ‘‘Rei do Crime’’, um mafioso típico que ataca o inexpugnável reino do herói pelo que ele tem de mais precioso: sua vida pessoal.
‘‘Watchmen’’, de Alan Moore, uma das melhores séries em quadrinhos já publicadas - curiosamente, uma das que o cinema não conseguiu até agora traduzir para a tela (e não foi por falta de tentativa) -, tratava justamente do envolvimento de superseres com política internacional, nacionalismo, racismo, fascismo, conspiracionismo.
‘‘Batman’’ tem sido rato de laboratório de grande parte das experiências psicologistas dos quadrinhos. Ele tem um atrativo extra: não tem nenhum superpoder, é um homem comum. A transposição de suas aventuras para o cinema exacerbou essa face esquizofrênica - ele chegou a ser tratado por uma bela analista, interpretada por Nicole Kidman.
Nos quadrinhos (‘‘O Cavaleiro das Trevas’’ 1 e 2) e na televisão, Batman aparece envelhecido, torturado por lembranças de uma vida que não teve, sentado em poltronas macias de uso geriátrico e agindo como um mentor. A ação é desempenhada por discípulos treinados para sucedê-lo. Fora de ação, o herói permanece como um observador ativo da realidade, não raro interferindo nela.
Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna Leiturinha.

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