O declínio de uma família húngara através de três momentos históricos – o império austro-húngaro, o nazismo e o comunismo – é o tema central abordado pelo diretor István Szabó em ‘‘Sunshine’’ . E apesar do significado simbólico do belo título original mantido no lançamento brasileiro, nada no filme transmite alegria ou encantamento. Por outro lado, sobram mesquinharias.
A saga de Szabó (‘‘Mephisto’’, ‘‘Coronel Redl’’) cobre três gerações dos Sonnenschein, família famosa por certo elixir que produzem e engarrafam, o ‘‘sunshine’’ mencionado. Os protagonistas masculinos são interpretados por Ralph Fiennes, impecável como sofredor aqui multiplicado por três: o patriarca Ignatz, que decide não assumir sua identidade de judeu, mudando o sobrenome para ascender na carreira de juiz; o filho Adam, que abandona a religião a fim de integrar um seleto clube de esgrima e aspirar à equipe olímpica: e seu neto Ivan, um burocrata comunista.
Esta espécie de assimilação à sociedade serve como painel universal, por mais que se fale de uma família, um país ou um século específicos. Não é difícil, portanto, adivinhar o simbolismo na fórmula da tal bebida familiar, a princípio bem-sucedida, mais tarde um fracasso. Os Sonnenschein aprenderam tudo a duras penas, geração após geração. Szabó toma o tempo que precisa para narrar sua saga. São três horas cheias, regadas com emoções fortes e placitude, tudo iluminado com preciosismo por Lajos Koltai, habitual colaborador de Szabó. A bela trilha musical de Maurice Jarre é uma entre várias recorrências ao projeto humanista de outro cineasta das sagas, o grande David Lean. Mas ‘‘Sunshine’’, apesar da sólida dignidade, fica distante da estatura de ‘‘Dr. Jivago’’ ou ‘‘A Filha de Ryan’’. (C.E.L.J.)

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