Ranulfo Pedreiro
De Londrina
A idéia surgiu para quebrar um pouco a sisudez da música instrumental, acrescentando elementos pop para ampliar a mestiçagem sonora brasileira. Um clima de festa – ancorado na descontração dos músicos – sustentou a mistura. Foi com essa receita que Rodrigo Lessa e Eduardo Neves compuseram ‘‘Pagode Jazz Sardinha’s Club’’ – gravada pelos grupos Nó em Pingo D’Água e Rabo de Lagartixa.
A música traz uma miscelânea de ritmos e um suingue diferenciado, agregando elementos do choro, do samba, do funk e do jazz. Da composição, o título saltou para um grupo que está se destacando no cenário carioca. A banda Pagode Jazz Sardinha’s Club chega ao CD homônimo em ritmo de folia.
O nome faz referência à boemia do Beco das Sardinhas, onde se vende sardinha em brasa no Rio de Janeiro, e à própria mistura sonora a que os músicos se propõem. Quando escalou o time de instrumentistas, Rodrigo Lessa se viu cercado de feras. Além dele, que já tocou com Guinga e participa do Nó em Pingo D’Água, o Pagode Jazz surge com o baterista Xande Figueiredo – que acompanhou Johnny Alf e Leny Andrade –, o trombonista Roberto Marques, Marcos Esguleba na percussão – onde tem samba, ele está no meio –, Eduardo Neves na flauta e sax – companheiro de Hermeto Paschoal e Marcos Suzano –, Edson Menezes no baixo – outro que tocou com Guinga –, e Lula Galvão no violão. Todo esse povo separou um repertório com sotaque bem carioca, espaço para improvisação e muita espontaneidade.
Na verdade, a banda surgiu depois que o primeiro show já estava marcado. ‘‘Vendi a primeira apresentação sem que a gente tivesse o grupo. Falei que tinha uma banda que era o maior barato. Aí convidei os músicos para o show e tivemos um resultado artístico-emocional tremendo. A gente tinha certeza de que estava nascendo algo muito legal’’, comenta Rodrigo Lessa. Esse ‘‘algo legal’’ se concretizou como banda, fez um segundo show e partiu para a gravação do disco.
‘‘Na música ‘Pagode Jazz Sardinha’s Club’ tinha uma fórmula que mestiçava a pureza do choro com outras linguagens. Aí achamos que era a matriz para desenvolver uma outra linguagem’’, explica Lessa. Essa nova tendência se localiza na fronteira entre vários gêneros e, também, entre os integrantes.
‘‘Procuramos criar um repertório que estabelecesse áreas de fronteira e reunimos músicos que tocam samba, funk e jazz. Existe um fosso de convivência entre o pop mais dançante com o universo mais sofisticado do ponto de vista harmônico’’, ressalta.
Além de várias parcerias de Rodrigo Lessa e Eduardo Neves, como ‘‘Transmestiço’’, ‘‘Noites de Gafuᒒ e ‘‘Reggae por Nós’’, o disco traz regravações de ‘‘Carinhoso’’, de Pixinguinha e João de Barro, ‘‘A História de um Valente’’, de Nelson Cavaquinho e José Ribeiro de Souza, e Luz Negra, de Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso. ‘‘A idéia era fazer uma música com o aspecto celebrativo, de brincadeira, trazendo algo harmônico com alegria dançante’’, acrescenta Lessa.
Tanta mistura encontra respaldo na obra do antropólogo Hermano Vianna, autor do livro ‘‘Mistério do Samba’’. ‘‘Foi um livro que me ajudou a formar o conceito do que é fazer música brasileira, e me deu força para mergulhar naquilo que a gente estava fazendo’’, salienta.
É uma mistura que se concentra no universo musical carioca, onde o disco está encontrando grande aceitação, mesmo sendo um lançamento independente – que não se encontra com facilidade. O álbum ‘‘Pagode Jazz Sardinha’s Club’’ corresponde à proposta de fazer música de qualidade com descontração de mesa de bar. É o tipo de lançamento do qual se espera distribuição nacional. Enquanto isso não ocorre, o CD pode ser adquirido no site www.artbrasil.art.br ou pelo e-mail [email protected] – em Curitiba está à venda na Livraria Arcádia.

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