Suingue da gema
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de junho de 1999
Antônio Mariano Júnior 
Opa, Elza Soares! No Cabaré do Filo! É hoje, a partir das 23 horas. Senhora do samba, dona de levadas jazzísticas incríveis, proprietária de um timbre vocal arrepiante, mandatária absoluta de qualquer canção, enfim, digna administradora de uma carreira pessoal e artística que, muitas vezes, se fundem e moldam o mito. Primadona da canção popular, Elza Soares vai se soltar - e há de dar o famoso passinho miúdo e disparar rouquidões em forma de contratempo - no palco do Filo.
E vai cantar músicas como Balanço Zona Sul (Tito Madi), Antonico (Ismael Silva), Desde que o Samba é Samba (Caetano Veloso-Gilberto Gil) e um pot-pourri com sucessos de Wilson Simonal - Sá Marina, Meu Limão, Meu Limoeiro, entre outros. Junto com ela, um trio de músicos - Alberto Farah (teclado), Afonso Vieira (bateria) e Jimmy Santa Cruz (bateria). O show é calcado no disco (ao vivo) Carioca da Gema, que será lançado nos próximos dias. Produção independente. A distribuição ficará por conta da gravadora Eldorado.
Pois muito bem, senhores, Elza Soares é uma festa. Festa não, é um evento. Depois de muitas lambadas, desenvolveu, digamos, memória seletiva. Quebrar a cara é normal. Deve-se quebrar a cara ao menos uma vez para aprender. Quebrou, conserta- diz ela com muita propriedade. Meu dever é resgatar cada vez mais minha dignidade já que nasci na contramão, ou seja, mulher, negra e pobre - acrescenta.
Na entrevista coletiva, Elza mostrou-se por inteiro. Contou passagens hilárias de sua vida, mostrou as cicatrizes das chagas, deu lição de sabedoria distribuiu frases que, fossem outra pessoa qualquer, seriam apenas de efeito. Mas vindas dela as palavras ganham consistência. Eu faço meu papel. Há muita gente que tem vergonha de citar seu passado, de onde saiu. Eu não. Há muitas Elzas por aí que ainda não saíram do lugar em que saí - afirmou.
Elza saiu do nada - de um planeta chamado fome, conforme tascou na lata de Ary Barroso, no final da década de 50, quando tentou a sorte como caloura. Saiu de lá consagrada, com um bom dinheiro do prêmio e com um pontapé bem dado numa carreira artística ilustrada com mais de 60 discos (No Brasil grava-se muito e ganha-se pouco). Primeiramente sambista. Sambista por longos anos. Sucessos nas rádios. Casamento com Mané Garrincha, muitas pedras em seu telhado de vidro. E ela lá, inteira. Ou quase. Mas nunca um esboço.
E nesses altos e baixos, quando as gravadoras pareciam enviá-la ao ostracismo, foi resgatada por Caetano Veloso, em 84. Lobão, o roqueiro, também a ajudou. Aí saiu de cena a sambista e entrava a roqueira. E os maneirismos vocais juntos em todas essas fases. Desiludida da vida, em meados da década de 80 foi de mala e cuia tentar a vida no exterior. Ficou lá nove anos.
Voltou para se apropriar de seu metro quadrado na MPB. Já era uma diva. Voltei porque acho que mereço o Brasil e ele a mim. Não me sinto bem como gringa. Sou brasileira com todos os nosso defeitos - justifica. Num ato de coragem, Elza topou tornar sua vida particular pública através de uma biografia, Cantando Pra não Enlouquecer.
Tá tudo lá - dos tempos das sandálias mamãe tô na merda (que arrebentavam com facilidade, daí o nome), a infância paupérrima, os casamentos (o primeiro aos 12 anos), o relacionamento polêmico com Mané Garrincha, os nove filhos (alguns papai do céu levou), a carreira, enfim, como se manteve em pé até hoje. E hoje Elza é reverenciada por muitos apesar de ser constantemente esnobada pela ala rancorosa da mídia.
Há um lado alegre de Elza que parecer ser sincero. E esse lado é tão alegre, tão alegre que a faz se autodenominar como um veado. Ela se assumiu como tal quando soube, através de um amigo, que muitos gays a imitivam. E daí que ela resolveu ir a uma casa gay para ver de perto um transformista a imitando. Eu não sabia quem estava imitando quem. Era igual - relata soltando uma gargalhada.
Idade? Ah, ninguém consegue arrancar. E isso não importa em se tratando dessa senhora alegre. Tanto que, sei-lá-quantos-anos, ela voltou a cursar Direito. Está no penúltimo ano. E agora se prepara para lançar mais um disco gravado ao vivo no Bar do Tom, no Rio de Janeiro. Na capa, Elza equilibrando uma lata dágua que, em seu caso, vem preenchida de metáforas. Esse trabalho tem tesão, tem alma- assegura.
E será com esses dois ingredientes - tesão e alma - que Elza Soares vai encantar o público que for hoje ao Cabaré. Várias gerações lá estarão para vê-la atuando. Em tempo: será que Se Acaso Você Chegasse que, como conta, já cantou de todos os jeitos, estará no repertório? Se não cantar, de certo haverá outras canções que podem substituir quase a altura a sua Conceição. É que qualquer música que provém da garganta de Elza Soares vem ressaltada de uma cor forte. Violeta e rosa choque, se é para arriscar um palpite.


