Suingue com inteligência
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de dezembro de 1997
Antônio Mariano Júnior Londrina 
ReproduçãoCapa de Tropicália - 30 Anos, que chega às lojas pela Natasha RecordsSob as bênçãos de Iemanjá, que na capa aparece em meio a cacho de bananas, abacaxi e rosas, chega às lojas Tropicália 30 Anos (Natasha Records) - um disco em homenagem ao movimento musical liderado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e cia. Batuque. Isso mesmo, batuque. O motivo é que o Tropicalismo foi escolhido como tema oficial do carnaval de 98 em Salvador. Legal? Legal! Merecido? Merecido! Bacana mesmo foi convocar alguns grupinhos de axé-music para cantar verdadeiros hinos tropicalistas sem precisar apelar para aquela batucada desvairada feita só e simplesmente para mexer com as ancas.
Um exemplo é o grupo Asa de Águia (aquele do Xô Satanás) cantando Superbacana (Caetano Veloso) mesmo que no final, por vício, solte frases bobinhas como super Caetano brother, Meu Rei,Super Asa e afins. A Banda Eva dá seu recado quadrado e bonitinho (mais quadrado que bonitinho) na agora também dançante Não Identificado (Caetano Veloso). E a Banda Cheiro do Amor, por incrível que pareça, consegue dar um ar mais chacoalhante sem arranhar a preciosidade que é Geléia Geral (Gilberto Gil-Torquato Neto).
Mas para que Tropicalia - 30 Anos não fosse mal interpretado foi necessário, providencial e coerente chamar os tótens do movimento para fazer releituras de algumas pérolas. Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé cantam o hino máximo - Tropicália. Gal Costa, sempre precisa, revê, agora com um toque funk, sua Divino Maravilhoso (Caetano Veloso-Gilberto Gil).
De quebra, Moraes Moreira dá sua grande contribuição em Atrás do Trio Elétrico em que mostra ser perfeitamente possível cantar à velha e boa maneira - com guitarras distorcidas - o velho ritmo do carnaval baiano que, a partir da década de 80, passou a ser substituído pelos tambores desvairados. O tradicional bloco Ilê Ayê vem vigoroso também na concretista Batmakumba (Caetano Veloso-Gilberto Gil).
Há um toque dance no meio das 13 faixas. E o responsável é Carlinhos Brown que, com a ajuda providencial de sintetizadores, dá uma versão interessante para Os Mais Doces Bárbaros, muito embora a gravação original (de 76, feita por Caetano, Bethânia, Gil e Gal) seja insuperável.
Mas alguém tinha que pisar na bola. E logo quem? Daniela Mercury. Crente que iria abafar, resolveu declamar alguns trechos de Alegria, Alegria (Caetano Veloso) no melhor estilo batatinha quando nasce.... Aí ela resolve cantar um pouquinho e mostra uma performance vocal questionável.
É só pular a faixa e aproveitar melhor Tropicália - 30 anos. Que, através de um repertório irrepreensível, até sugere que o carnaval baiano poderia unir diversão, suingue e inteligência. É que, cá pra nós, nos últimos anos algumas músicas que estouraram na folia baiana só não são mais risíveis e fúteis por falta de espaço.


