ReproduçãoCapa de ‘‘Tropicália - 30 Anos’’, que chega às lojas pela Natasha RecordsSob as bênçãos de Iemanjá, que na capa aparece em meio a cacho de bananas, abacaxi e rosas, chega às lojas ‘‘Tropicália 30 Anos’’ (Natasha Records) - um disco em homenagem ao movimento musical liderado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e cia. Batuque. Isso mesmo, batuque. O motivo é que o Tropicalismo foi escolhido como tema oficial do carnaval de 98 em Salvador. Legal? Legal! Merecido? Merecido! Bacana mesmo foi convocar alguns grupinhos de axé-music para cantar verdadeiros hinos tropicalistas sem precisar apelar para aquela batucada desvairada feita só e simplesmente para mexer com as ancas.
Um exemplo é o grupo Asa de Águia (aquele do ‘‘Xô Satanás’’) cantando ‘‘Superbacana’’ (Caetano Veloso) mesmo que no final, por vício, solte frases bobinhas como ‘‘super Caetano brother’’, ‘‘Meu Rei’’,‘‘Super Asa’’ e afins. A Banda Eva dá seu recado quadrado e bonitinho (mais quadrado que bonitinho) na agora também dançante ‘‘Não Identificado’’ (Caetano Veloso). E a Banda Cheiro do Amor’’, por incrível que pareça, consegue dar um ar mais chacoalhante sem arranhar a preciosidade que é ‘‘Geléia Geral’’ (Gilberto Gil-Torquato Neto).
Mas para que ‘‘Tropicalia - 30 Anos’’ não fosse mal interpretado foi necessário, providencial e coerente chamar os tótens do movimento para fazer releituras de algumas pérolas. Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé cantam o hino máximo - ‘‘Tropicália’’. Gal Costa, sempre precisa, revê, agora com um toque funk, sua ‘‘Divino Maravilhoso’’ (Caetano Veloso-Gilberto Gil).
De quebra, Moraes Moreira dá sua grande contribuição em ‘‘Atrás do Trio Elétrico’’ em que mostra ser perfeitamente possível cantar à velha e boa maneira - com guitarras distorcidas - o velho ritmo do carnaval baiano que, a partir da década de 80, passou a ser substituído pelos tambores desvairados. O tradicional bloco Ilê Ayê vem vigoroso também na concretista ‘‘Batmakumba’’ (Caetano Veloso-Gilberto Gil).
Há um toque dance no meio das 13 faixas. E o responsável é Carlinhos Brown que, com a ajuda providencial de sintetizadores, dá uma versão interessante para ‘‘Os Mais Doces Bárbaros’’, muito embora a gravação original (de 76, feita por Caetano, Bethânia, Gil e Gal) seja insuperável.
Mas alguém tinha que pisar na bola. E logo quem? Daniela Mercury. Crente que iria abafar, resolveu declamar alguns trechos de ‘‘Alegria, Alegria’’ (Caetano Veloso) no melhor estilo ‘‘batatinha quando nasce...’. Aí ela resolve cantar um pouquinho e mostra uma performance vocal questionável.
É só pular a faixa e aproveitar melhor ‘‘Tropicália - 30 anos’’. Que, através de um repertório irrepreensível, até sugere que o carnaval baiano poderia unir diversão, suingue e inteligência. É que, cá pra nós, nos últimos anos algumas músicas que estouraram na folia baiana só não são mais risíveis e fúteis por falta de espaço.

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