São Paulo, 01 (AE) - O poeta Cacaso, que não acreditava em anjos, percebeu e escreveu para que ela cantasse: "Dentro de mim mora um anjo" - sofredor, de alma partida, pulsos cortados, um anjo com a feição e desespero humanos. Numa conversa reservada, um dia, confessou que acertara de raspão: o anjo, se houvesse um, era ela mesma, Sueli Costa, e tão poderoso que despertara nele sua melhor poesia. Eles compuseram "Dentro de Mim Mora um Anjo" no início dos anos 70. A canção foi tema de telenovela e consolidou o prestígio da compositora, que na mesma época teve outro sucesso em trilha de novela, cantado por Maria Bethânia - "Coração Ateu" (Sueli e Joãozinho Medeiros) foi um dos grandes êxitos da carreira de Bethânia.
Sueli Costa está no repertório do novo disco e do novo show de Bethânia, como tem estado fielmente há quase 30 anos. "Impossível que haja um ser humano mais bonito do que ela", diz a cantora. "E, certamente, é a grande personalidade musical feminina do século desde Chiquinha Gonzaga", assegura, no que é acompanhada por coro inequívoco - de Chico Buarque a Guinga e Théo de Barros, para falar de uns poucos adoradores.
O presente é: Sueli Costa canta amanhã (02) e sábado no Supremo Musical. Os adoradores - e não há meios-termos - terão ainda uma vez a oportunidade (e são poucas as oportunidades) de, vendo e ouvindo Sueli, andar mais alguns passos na trilha da compreensão - não das soluções, que não existem - da condição humana, das dores e dos prazeres do que Drummond chamava de ser amoroso, que não pode, senão, entre criaturas, amar. E desamar.
Quem não conhece Sueli Costa está, mesmo, perdendo muito. Mas bastam uns poucos compassos de sua música maravilhosa para que mude de condição e passe à de adorador, e isso é fato comprovado. Infelizmente, deve haver hoje quem não conheça Sueli Costa. Não que ela componha menos ou menos bem do que na época de maior sucesso, nos anos 70 e 80, quando suas músicas davam título e puxavam as vendas dos discos de Simone (na época em que Simone gravava coisa boa), como "Alma e Jura Secreta" (ambas com Abel Silva); de Elis Regina, como "Vinte Anos Blue" (com Victor Martins), "O Primeiro Jornal" (com Abel Silva) ou "Altos e Baixos" (com Aldir Blanc); de Nana Caymmi, como "Voz e Suor" (com Abel Silva); e de Gal Costa, como "Vida de Artista" (outra com Abel Silva).
É que, de repente, as músicas de Sueli deixaram de tocar. Ela ousou romper um contrato (privilégio legal) com a administradora de seus direitos autorais (a Sigem - Sistema Globo de Edições Musicais). A questão - coincidência, como diz a Sigem, restrição, censura intelectual, como diz Sueli, - está na Justiça. O fato é que ela passou do mais alardeado sucesso ao mais alarmante silêncio.
Em horas assim, revelam-se caracteres. Chico Buarque, Nana Caymmi, Maria Bethânia foram a público protestar contra a censura à obra da grande compositora. O desagravo moral ficou estabelecido, estampado nas páginas dos jornais. O prejuízo financeiro talvez seja resgatável. A referência musical, entretanto, perdeu-se para toda uma geração, ao longo dos dez anos em que a causa corre.
Tudo isso foi próximo da perda de dois dos principais parceiros - morreu primeiro Tite de Lemos; Cacaso um pouco depois. Mas Sueli conquistou outros. Compôs um punhado de lindas canções com letra de Paulo César Pinheiro - um punhado generoso, numa fortuna em que sobressaem as desesperadíssimas melodia e letra de "Porto Santo" ("E eu ouvia trovões na cidade, que nem Santa Bárbara faz, e embarcava nessa tempestade, num cargueiro, para nunca mais"). Selma Reis gravou a canção em seu disco de estréia, pouco conhecido. Aparentemente, ninguém a redescobriu.
Linguagem própria - Sueli Costa nasceu no Rio, mas foi criada em Juiz de Fora, Minas Gerais - é mineira, como o carioca Milton Nascimento. Aprendeu a tocar violão sozinha e depois estudou piano - a mãe era pianista. Sueli é uma instrumentista de linguagem muito própria, sensível, elaborada, densa como suas músicas são densas, intensas. Estudou Direito, fez música para teatro, participou de um festival internacional da canção, em 1970, com "Encouraçado"- música sobre letra de Tite de Lemos que, por sinal, está no repertório do novo show de Bethânia.
Por que música sobre letra? O procedimento comum, em qualquer parte do mundo, diz que a música é feita primeiro; a letra vem depois, obedecendo a certos sinais que a música determinada, submetida à melodia, ao pulso, ao passo, ao compasso musical, suas idiossincrasias, seu código intrínseco. Mas Sueli prefere musicar letras. Ou poemas - por iniciativa própria e muitas vezes por encomenda da fiel Bethânia, musicou magnificamente sonetos e poesia diversa de Fernando Pessoa; musicou o "Romanceiro da Inconfidência", de Cecília Meireles, obra praticamente inédita, um tesouro de dimensões não mensuráveis a ouvido distraído.
Ela não é uma cantora, na acepção mais corrente do termo - aquela voz perfeita, de rigorosa afinação, de pronúncia impecável. Não, mas Sueli é a melhor intérprete de sua obra - da mesma forma que ninguém cantará Chico Buarque como Chico Buarque
Dorival Caymmi como Dorival Caymmi. Cada canção é um mundo e quem melhor o traduz é seu construtor. Essa é mais uma razão para não perder a oportunidade raríssima. Em tempo: em "Jura Secreta", Sueli canta "Só uma palavra me devora: aquela que meu coração não diz." Por isso, diz tudo, o amor e a morte. Sueli Costa. Sexta e Sábado, às 23 horas. R$ 20,00. Duração: 1h30. Supremo Musical. Rua Oscar Freire, 1.000, tel. 852-0950.

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