Suecos ganham festival de documentários
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de abril de 2001
Silvana Arantes Agência Folha 
Com o documentário Sacrifício no qual investigam o episódio da delação que levou o exército boliviano até o esconderijo de Che Guevara na Bolívia e este à morte, em 1967 , os cineastas suecos Erik Gandini e Tarik Saleh venceram na noite de domingo o 6º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, realizado simultaneamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sacrifício desmonta a versão corrente que aponta o artista plástico argentino Ciro Bustos como o traidor, ao ouvir testemunhas, historiadores, o homem que o inculpou o filósofo francês Régis Debray e o próprio acusado, que se exilou na Suécia. No próximo mês de maio, o documentário deverá ser exibido pelo canal pago Directv, junto com outros nove títulos do festival. Erik Gandini conversou com a reportagem sobre o filme premiado.
O que levou dois suecos a fazer um documentário sobre Che?
A história da morte de Che tem sido muito mitificada em livros e filmes. Eu nasci no mesmo ano em que Che morreu e cresci nos anos 70, num ambiente de esquerda, na Itália, onde Che era o grande ícone, como um Cristo. Nesse contexto, o Judas da história era Ciro Bustos. Indiretamente, ele teve que assumir a culpa pelo fracasso da revolução em toda a América Latina, o que é um peso ligeiramente grande demais para um único homem exilado na Suécia. Além disso, não se pode escrever uma história real, sobre pessoas reais, em situações reais, como se escreve um mito religioso, um romance ou um filme hollywoodiano. Tarik e eu ficamos fascinados por essa distância entre tudo o que lemos sobre Ciro Bustos e a versão dele sobre os fatos.
Ao fazer uma investigação abrangente, ouvindo grande parte das testemunhas, o propósito de Sacrifício era chegar a uma versão definitiva do tema ou expor a falibilidade do processo de documentação da história? Descobrir a verdade é especialmente mais difícil porque há 30 anos de distância dos fatos ocorridos, e o exército boliviano continua mantendo sob sigilo os interrogatórios de Bustos e Régis Debray (o filósofo francês capturado junto com o artista argentino e que o acusou de delação). Nosso filme não pretende apresentar uma verdade absoluta, porque isso seria incorrer no mesmo tipo de erro de construção histórica que classificou Bustos como o perverso absoluto e Guevara como o herói incontestável. Esse é um filme que traz questões sobre como a história é escrita. Sobre como, num tipo de história frequentemente tratada em termos de heróis e mártires, uma pessoa como Ciro Bustos pode ser conduzida a um papel de Judas, sobretudo por gente interessada em alavancar uma carreira.
Por que o sr. acreditou em Ciro Bustos?
Vários autores que escreveram ou especularam sobre ele nunca procuraram ouvi-lo. Percebemos que a única maneira de verificar sua história era confrontar o dado específico de ele haver sido o primeiro a falar. Procuramos todos os protagonistas ainda vivos do episódio Bolívia. Viajamos o mundo atrás de agentes da Cia, de generais bolivianos aposentados, do homem que matou Che e de Régis Debray. A confirmação de que não foi Bustos quem falou primeiro não é uma opinião de Sacrifício, mas uma versão confiável oferecida por testemunhas.
Quanto o filme custou?
O filme começou como um projeto de baixo orçamento e tornou-se muito maior e mais caro durante sua execução. Recebemos US$ 75 mil da TV sueca e, em um ano de produção, trabalhamos de graça durante muito tempo. Tivemos apoio de amigos que trabalharam recebendo muito menos do que costumam.
O que orientou a escolha linguística e estética do filme?
Sou filho de uma sueca e cresci na Itália, em um dos piores ambientes de TV comercial que se possa imaginar. Na Suécia, encontrei o desenvolvimento de uma nova geração de cineastas, baseado em uma forte tradição do documentário. Tarik Saleh e eu somos muito interessados em grandes acontecimentos históricos, que usualmente são abordados apenas em livros ou programas jornalísticos. Nós queremos associar esses acontecimentos com a nossa experiência e retê-los à nossa maneira. Somos inspirados por muito mais coisas além de documentários tradicionais. Somos grandes fãs de filmes de ficção e grandes consumidores de música. Nós não temos um manifesto para cinema documental.
Qual é seu novo projeto?
Estamos começando um projeto sobre o Oriente Médio, com pessoas que vivem na Suécia e que tomaram parte no conflito na Palestina. A partir delas, vamos virar nosso foco para Carlos, o Chacal, um dos mais caçados terroristas da história, hoje preso em Paris, e outros personagens que ainda não posso citar. Planejamos fazer uma série de filmes históricos alternativos, abordando uma diferente região do planeta em cada filme Europa, África, Oriente Médio, Bálcãs.


