São Paulo, 11 (AE) - Há uma indagação recorrente nas peças do russo Anton Chekhov (1860-1904): que mundo estamos construindo para daqui a cem anos? Um século depois, apesar das profundas transformações tecnológicas ocorridas no planeta, as inquietações apontadas por Chekhov permanecem atuais. Prova disso foi a enxurrada de peças do autor que chegou aos palcos do Rio e de São Paulo.
Entre elas, a montagem carioca de "As Três Irmãs", com direção de Enrique Diaz e um elenco de 11 atores e atrizes com experiência nos palcos e talento comprovado, que estréia amanhã (12) no Teatro Sesc Vila Mariana. Maria Padilha, Cláudia Abreu, Julia Lemmertz, Débora Duboc, Luciano Chirolli, Celso Frateschi, Antônio Pedro, Fernando Eiras, Paulo Trajano, Yolanda Cardoso e André Barros integram o elenco da montagem que tem cenários de Hélio Eichbauer e figurinos de Marcelo Olinto.
Num primeiro olhar, a trama de "As Três Irmãs" é muito simples. Macha (Maria Padilha), Olga (Julia Lemmertz) e Irina (Cláudia Abreu) vivem entediadas numa cidade provinciana, mas sonham em voltar para Moscou, onde as as três, agora órfãs, um dia tiveram uma infância feliz.
Depositam a esperança de retorno na carreira do irmão Andrei (André Barros), que imaginam que vai ocupar um cargo na Universidade de Moscou, para onde levaria a esposa Nathasha (Débora Duboc) e o resto da família. A esperança das três ganha impulso com a chegada à cidade de um destacamento militar comandado por Verchinin (Celso Frateschi), que as conheceu ainda meninas em Moscou e era amigo do pai delas. Tragédia das trivialidades - O público acompanha um período de cerca de cinco anos na vida das três, marcado por quatro momentos distintos, com o clima e as cores das quatro estações do ano. A peça inicia com a alegria da primavera, quando ainda são fortes as esperanças, mas ao longo da peça elas descobrem que o futuro de sonhos não se torna presente no esperado passe de mágica.
As conversas são aparentemente triviais. Trazendo para nossa realidade, podem até ser comparadas com as que ocorrem em qualquer reunião de amigos e vizinhos quando os assuntos variam desde críticas à vida alheia até os planos de um futuro promissor para os filhos. "Ninguém compreendeu tão lúcida e finamente como Chekhov a tragédia das trivialidades da vida", escreveu o escritor Máximo Gorki (1869-1936).
"Nada mais contemporâneo e eterno do que a tendência da gente em projetar a felicidade no passado ou no futuro", diz Maria Padilha, atriz e produtora do espetáculo. "Chekhov escava até às minúcias sentimentos sobre os quais a gente guardaria apenas uma impressão superficial", comenta Cláudia Abreu.
"Minha personagem começa cheia de planos, ela pensa que nada está ocorrendo, mas na verdade o tempo está passando e rápido", completa Cláudia. Essa aparente imobilidade de personagens cheios de desejos sofrendo a ação implacável do tempo é a marca da obra do autor.
"Ele era médico num tempo em que as pessoas eram atendidas em suas casas e por isso ele sabia tudo do ser humano", diz Maria. "Pode parecer o óbvio, mas Chekhov consegue o que penso ser a função do teatro: provocar a reflexão ao mesmo tempo em que faz a platéia rir e emocionar-se", afirma Julia Lemmertz.
Grande frasista, o brasileiro Nélson Rodrigues dizia que, após um ano de atividade, o repórter policial era um "Balzac completo" (autor de A Comédia Humana). "Com seis meses de atividade, eu julgava conhecer todas as danações do homem e da mulher", afirmou Nélson. O brasileiro lidava com o crime, o exarcerbamento das paixões; o russo, com a fragilidade provocada pela doença. Em comum, o ser humano num momento de angústia.
Coincidência ou não, o gosto do autor russo pelo realismo valeu-lhe acusações de mau gosto e de explorar a sujeira e a grosseria. "A literatura só pode ser classificada de arte quando pinta a vida como ela é", respondeu Chekhov. Opção radical - Diaz ousa na direção de "As Três Irmãs". Depois de dez anos liderando a Cia. dos Atores, dirige pela primeira vez um texto clássico. E ousa justamente por abrir mão do experimentalismo que é marca de seus (ótimos) espetáculos com sua companhia. "Dirigi sem nenhuma intenção de imprimir uma marca autoral e, sim, de trabalhar o máximo possível com o texto e os atores", afirma Diaz.
"Cheguei a pensar numa proposta estilística, concebendo linguagens diferentes para cada um dos quatro atos", lembra Diaz. "Mas o texto já oferece um grau de complexidade tão grande que a opção mais radical reside numa concepção orgânica que possibilite o encontro desse elenco no palco".
Edla van Steen, responsável pela tradução e pela adaptação, manteve praticamente na íntegra o texto original, presenteando o público com uma ótima oportunidade de conhecer o universo do autor. "Acredito que, quanto mais conseguimos escapar da armadilha de fazer um espetáculo mais importante do que o texto, maior nossa comunicação com o público", conclui Maria.

mockup