Sucesso no Festival de Teatro de Curitiba, 'Espaço de Olga' estréia em SP para 2 apresentações
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segunda-feira, 10 de abril de 2000
Por Beth Népoli 
São Paulo, 11 (AE) - Um dos melhores espetáculos apresentados na mostra paralela, o Fringe, do 9º Festival de Teatro de Curitiba, no mês passado, "Espaço de Olga", chega a São Paulo para apenas duas apresentações, amanhã (12) e quinta-feira, no Instituto Goethe. A vida de Olga Benário (1908-1942) é o tema do monólogo interpretado pela atriz brasileira Carla Bessa, que há dez anos vive na Alemanha.
Agente do serviço de espionagem militar soviético, admitida no Departamento de Estado Maior do Exército Vermelho em 1932, Olga partiu para o Brasil no dia 29 de dezembro de 1934 acompanhando a viagem de regresso do líder político brasileiro Luís Carlos Prestes ao País. Dois anos depois, foi deportada para Alemanha nazista pelo regime do ditador Getúlio Vargas grávida de sete meses de Anita, filha de Prestes. Depois de seis anos de prisão, foi morta numa câmara de gás em Berburg, Alemanha.
No Brasil, a vida da primeira mulher de Prestes rendeu a alentada biografia "Olga", escrita por Fernando Morais e editada pela Alfa Omega. Na Alemanha, rendeu a peça teatral de Dea Loher, ponto de partida para o monólogo cujo texto foi adaptado por Carla. "Dea é uma autora jovem em ascensão, já premiada na Inglaterra", diz a atriz que leu a biografia de Morais quando vivia no Brasil. "A peça original tem vários personagens e eu a adaptei para a linguagem do monólogo".
"Espaço de Olga" centra a ação nos últimos dias de prisão de Olga, já afastada da filha Anita - hoje vivendo no Rio -, nascida na cela e separada da mãe no fim do período de amamentação. Sozinha, Olga desfia em voz alta suas memórias. Bem construído - e muito bem interpretado por Carla -, o texto não se limita a relatar os principais momentos da biografia de Olga, mas explora também seus conflitos interiores.
Ponto para a dramaturga que, ao mostrar também o lado frágil da mulher que resistiu a terríveis sessões de tortura, humaniza a personagem e facilita a identificação do espectador com o drama da personagem. Bailarina de formação, Carla, também responsável pela direção do espetáculo, sugere as sessões de tortura sofridas por Olga com movimentos simples e expressivos enquanto fala. "Trabalhei mais com a sugestão porque a tortura é uma situação muito difícil de ser colocada de maneira realista no palco", diz Carla.
"Uma cena muito realista choca, assusta, é desagradável e eu não desejava impor esse sentimento ao espectador", argumenta. "Minha intenção era deixar espaço para a reflexão, por isso tentei usar um pouco de distanciamento", justifica. A opção da atriz acaba por ampliar o tema, sem abrir mão de sua contundência. "O importante não é especificamente a história de Olga, mas tentei que sua vida fosse pano de fundo para refletir sobre a violência de forma mais geral, a partir da situação de opressão e isolamento vivida por essa mulher".
Carioca, Carla formou-se atriz pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) no Rio e, em 1991, mudou-se para a Alemanha. "Dei sorte, porque logo que cheguei entrei para um grupo de teatro e não parei mais de trabalhar", conta a atriz que apresentou "Espaço de Olga" em português e alemão no Festival de Curitiba. Em 1997, Carla fundou sua companhia na Alemanha, formada por um núcleo de quatro pessoas. Como era a única atriz do grupo - os outros três formavam uma pequena equipe técnica -, montou o monólogo "Valsa nº 6", de Nélson Rodrigues.
"Gostei muito da experiência do solo, foi muito enriquecedor atuar e dirigir nesse gênero". Daí ter resolvido repetir e experiência em "Espaço para Olga". "Já havia lido o livro do Fernando Morais no Brasil e quando li o texto de Dea fiquei completamente fascinada de vez pela história".
O monólogo foi criado a partir de uma co-produção entre Alemanha e áustria. "Fiz algumas apresentações em Berlim e parti para a áustria, onde a ressonância foi muito legal", conta. A viagem ao Brasil foi patrocinada pelo Instituto Goethe. Carla não tem planos de voltar a viver no Brasil. "Na Alemanha tenho um grupo estruturado com o apoio da secretaria de cultura e no Brasil isso seria muito difícil". Serviço - "Espaço de Olga". Drama. Adaptação da obra de Dea Loher. Realização, tradução e interpretação de Carla Bessa. Duração: 55 minutos. Quarta e quinta, às 21 horas. Grátis. Instituto Goethe. Rua Lisboa, 974, tel. 280-4288.


