SUCESSO - Um 'bonde' que vai longe
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de abril de 2006
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Follha 
Curitiba - As letras são impublicáveis, a não ser que pudessem ser acompanhadas daqueles apitos sonoros que as televisões utilizam para evitar que palavras impróprias sejam ouvidas. Mas a música, acredite, está fazendo sucesso e ultrapassando fronteiras. Em menos de um ano, as composições e o ritmo da banda curitibana Bonde do Rolê, trio de funk ''carioca'', alcançou projeção internacional. No início de abril foi a vez da revista Rolling Stones indicar o trio entre as dez bandas-revelação do momento. No último dia 6, o consagrado jornal ''New York Times'' também se rendeu ao sucesso da banda e deu uma nota sobre os meninos.
O trio, na verdade, é também integrado por uma garota, Marina Ribatski, de 21 anos - ao lado de Pedro Deyrot, 22 anos e o do DJ Rodrigo Gorky, 25. Eles criaram a banda em maio passado, quando se encontraram com o propósito de fazer músicas num ritmo bem distinto do atual, calcado principalmente no electro. Mas depois de uma ''brincadeira que deu certo'' como costumam dizer, fizeram arranjos inusitados para letras que não só parodiam o funk carioca, mas conseguem ser mais escatológicas que o gênero original.
Uma das peculiaridades é que o funk do Bonde do Rolê é feito sobre samples tirados de Daft Punk, AC/DC, Alice in Chains, Smashing Pumpkins, The Darkness. Tem também trechos de canções como Grease ou a voz da personagem Perpétua, da novela Tieta ao longo das músicas. Tanta informação concomitante rendeu algo original, que chamou a atenção do DJ e produtor norte-americano Diplo. Além de padrinho do trio, ele foi responsável por lançar, pelo selo próprio Mad Decent, o primeiro disco da banda. No Brasil, o disco é importado e só pode ser adquirido em dólares ou libras.
Aliás, está aí outra característica do trio. Eles estão fazendo um baita sucesso fora do País, mas não conseguem tocar no Brasil, muito menos em Curitiba. ''Nosso melhor show aqui nós é que produzimos. Foi no final do feriado de Carnaval e tinha umas 200 pessoas. O que é bom, até'', conta Marina. No Rio de Janeiro, os produtores queriam que a banda tocasse de graça ou que levasse o DJ Diplo a reboque. ''Sempre acham que estão fazendo um favor pra banda'', reclama a vocalista.
O DJ Rodrigo Gorki faz coro e acha bizarro que as coisas para eles estejam mais fáceis lá fora do que no Brasil. ''Nossas letras são em português. É mais divertido tocar aqui'', diz Deyrot. Mas é ''lá'' que as coisas estão acontecendo. O trio está com duas turnês marcadas para Europa e Estados Unidos. Antes, no dia 20 de abril, ainda faz um show em Porto Alegre. As turnês internacionais já estão com uma dezena de shows marcados na Europa e mais de 30 apresentações pelos Estados Unidos. Todas elas marcadas com o aval do padrinho musical Diplo.
Todo o sucesso ainda assusta a banda, que tinha apenas duas músicas quando foi chamada para o primeiro show em Florianópolis (SC) em maio do ano passado. ''Para essa apresentação tivemos que compôr outras e fizemos umas músicas a toque de caixa'', lembra Marina. ''A gente só queria ir para Florianópolis de graça'', brinca. Mas foi a partir daí que as letras engraçadas amparadas por ritmos carregados de referências ganharam o mundo e foram escutadas por Diplo, que imediatamente ''adotou'' o trio curitibano.
Os três moram na cidade, mas apenas Marina nasceu na capital paranaense. Gorky nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul. Filho de militar, passou a infância viajando por diversas cidades brasileiras, entre elas o Rio de Janeiro. ''Com certeza essa passagem influenciou meu gosto pelo funk'', argumenta. Mas a música está no sangue do DJ desde pequeno. ''Eu lembro quando eu tinha uns três anos e me perdi no shopping. Minha mãe, desesperada, me encontrou em frente à caixa de som, dançando.''
Na adolescência, Gorky chegou a aprender violão e montar algumas bandas, mas foi no computador que decidiu se especializar. Há dois anos conheceu o paulista Pedro Deyrot. Com Marina juntando-se ao trio logo depois, estava formada a banda. O nome foi inspirando numa lanchonete que fica perto da casa de Rodrigo, bem no centro de Curitiba, e que tem no cardápio um sanduíche chamada X-rolê, além de deixar rolar rádios com sons dos mais variados, com qualidade duvidosa ou não.
As músicas no som da lanchonete, aliás, também serviram de fonte de inspiração para os samples da banda. Já as letras, assinadas em conjunto, mas que tem Deyrot como mentor, não se sabe de onde vêm. São funks como a ''Melô do Tabaco'', a preferida dos internautas, ''Melô do Vitiligo'' e ''Dança da Ventuinha''. As músicas estão disponíveis no site www.-myspace.com/bondedorole. O site também tem link para comprar os discos. O trio já está gravando um segundo trabalho. A primeira parte foi gravada no Rio de Janeiro, na semana passada. A segunda está em fase de produção em Curitiba. O lançamento ainda não tem data marcada.
LETRAS
Confira alguns trechos publicáveis das músicas do Bonde do Rolê
Melô do Tabaco
''Belo dia boa tarde/eu tô toda molhadinha/vem dançar comigo vem/vem dar uma reboladinha''
Melô do Vitiligo
''Fui no botecão/pra tomar uma caipirinha/espremeu limão errado/manchou toda minha pelinha/as viada tudo loca já criaram confusão/ perguntaram é vitiligo
eu disse é mancha de limão/ ai vai vai vitiligo /parece vitiligo, mas é mancha de limão''
(...)''Mais lindo que Michael Jackson/mais 'estaile' que o bozo/ bem mais chique que o Scarpa/mais branquelo e mais gostoso/vai vai vai vitiligo/
parece vitiligo, mas é mancha de limão''
Dança da Ventuinha
''Olha lá as meninas apreciando o gorozão/daqui a pouco tão no grau pra começar o pancadão/toma uma toma duas/catuaba sempre é bom/ as ganguera tão na área liberando o frisson''


