SUCESSO - A vida sob as lentes do otimismo
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de março de 2006
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A vida é um caos. O comércio de móveis e objetos usados também. A metáfora pode parecer estranha à primeira vista, mas experimente entrar em um antiquário. São dezenas de peças antigas espalhadas, à princípio, sem muito critério. Objetos que já foram caros a alguns e que hoje estão na prateleira a espera de alguém que de um novo sentido à peça. Pedaços de passado materializados que podem significar tudo. Ou nada. Como lembranças na mente de alguém. Para o dono de um dos maiores antiquários de Curitiba, José Antônio da Silva, o significado da vida pode ser materializado justamente no caos da sua empresa, o Mercado das Pulgas. Foi a idéia de montar o comércio, há 18 anos, que o salvou da falência comercial, livrou-o da idéia de suicídio e deu novo sentido à sua vida.
Açougueiro desde os 8 anos de idade, órfão de mãe e vivendo em um orfanato desde os quatro anos, quando se mudou de Santa Catarina, estado onde nasceu, para a capital paranaense, o ''senhor José'', como é conhecido, saiu da miséria para a bonança econômica. Depois de uma rápida passagem por uma livraria da cidade, onde bateu aos 12 anos em busca de emprego, ele montou seu próprio comércio, um açougue, aos 15 anos, emprestando o nome de um conhecido por causa da pouca idade. Com tino comercial afiado, em pouco tempo, o açougue de ''seo'' José já tinha até filiais. Ele casou, teve filhos, conquistou respeito e ganhou dinheiro. ''Em apenas um mês, uma das lojas de carne chegavam a vender 400 bois'', lembra.
Mas na década de 80, o comércio de carnes sofreu uma grande crise. Comer carne no Brasil nessa época era quase um luxo. E o motivo nem era a febre aftosa ou doença semelhante. O problema era o preço mesmo. ''O consumo de carne caiu muito e inviabilizou o comércio das casas de carnes no País'', recorda o empresário. Foi então, que o declínio comercial de ''seo'' José começou. Obrigado a fechar os 16 açougues que já tinha em Curitiba, em pouco tempo ficou sem dinheiro até para as necessidades mais básicas, além de ter acumulado dívidas.
Assustado com a situação e preocupado com o sustento da mulher e dos filhos, ele teve uma idéia. ''Eu sempre paguei o seguro de vida e pensei que se tirasse minha própria vida, simulando um acidente, minha família pudesse ficar bem financeiramente''. Em uma madrugada fria, tipicamente curitibana, acordou, foi até a garagem e empurrou o único bem da família que tinha restado, um carro modelo Caravan, até fora de casa, para não fazer barulho e não acordar ninguém. Já fora de casa, ligou o carro e foi até a rodovia mais próxima, à espera de uma oportunidade para provocar um acidente.
Enquanto isso, porém, foi pensando em como a mulher iria explicar o fato para a seguradora. ''Eu achei que eles podiam descobrir que tinha sido suicídio, porque eu não tinha compromisso aquela hora da madrugada''. Sabiamente, seo José desistiu da tentativa, também por pensar da família, claro, e voltou para casa. Quando deitou-se novamente, a mulher perguntou aonde ele tinha ido. Desconfiada da apreensão do marido, acalmou-o e sugeriu que eles vendessem os próprios móveis para conseguir algum dinheiro. ''A idéia era boa. Não precisávamos de capital e podíamos pegar outros móveis e objetos em consignação para vender também''.
Nascia então a Intermédio, empresa que intermediava a venda de móveis e objetos usados que posteriormente ganhou o nome fantasia de Mercado das Pulgas. Quando mudou para o nome atual, o público demorou a entender o que a loja comercializada. ''Chegavam a nos ligar perguntando se fazíamos dedetização'', diverte-se Silva. A empresa que surgiu tendo como acervo os móveis da família, hoje já tem 60 mil peças em seu acervo, acomodadas em um barracão de 7 mil metros quadrados localizado no bairro Água Verde, em Curitiba.
A loja vende desde pequenas estatuetas e obras de arte até móveis usados e antigos. Atualmente é referência nesse tipo de serviço. ''O único problema é que nunca tive preocupação com a história dos objetos. Hoje tenho muita coisa aqui que sei que é valiosa, mas não tenho como provar as informações históricas da peça'', revela o proprietário. Agora, porém, essa realidade está mudando. Cada objeto de arte e até móveis que entra na loja, recebe um relatório com a sua origem. A prática está rendendo um acervo curioso. Além de peças que lembram o acidente com o Titatic, um dos maiores naufrágios da história mundial, o Mercado das Pulgas traz objetos históricos curiosos, como um cavalete que foi do pintor Alfredo Andersen.
O primeiro quadro pintado do pintor austríaco Frederic Natch, que ficou cego, e teve a visão recuperada por um médico, também integra o acervo. A obra foi vendida pela própria família do médico, que recebeu o quadro há quase um século. O quadro não está à venda no Mercado das Pulgas, assim como diversos objetos da loja ''que tem inestimável valor comercial e muito valor histórico'', conforme argumenta o proprietário. Parte desses objetos devem integrar um museu particular que o empresário pretende montar, ainda sem local definido.
Enquanto aguarda definições para montar o seu museu, com os objetos adquiridos na loja, Jose Antônio Silva está expondo no próprio barracão algumas peças interessantes. ''Acho que esse material tem que ficar disponível ao público'', salienta. E quem tiver algum objeto ou coleção interessante em casa e quiser expôr, o Mercado das Pulgas também cede o espaço da loja. É uma forma de organizar o caos das lembranças materiais e contribuir para história.
Serviço:
- O Mercado das Pulgas fica na Rua Brasílio Itiberê, 3910 (Água Verde). Telefone (41) 3342-5673.


