Uma velha hélice de ventilador, um bule amassado e um pedaço de mangueira de máquina de lavar roupas, juntos, podem dizer de forma comovente que todos os homens nascem livres e iguais. Essa é a proposta do grupo ‘‘Teatro Sim... Por que Não?’’, de Florianópolis (SC). Os encenadores se inspiraram na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, reciclaram os artigos e deram vida ao espetáculo de formas animadas ‘‘Livres e Iguais’’. O texto original foi escrito pelo escritor Perito Monteiro para um espetáculo de forma tradicional.
Com bonecos construídos com sucatas de metal, o grupo mostra no Filo 2001, hoje e amanhã, as distintas formas de violação dos direitos dos homens, prescindindo do uso da palavras. Ambientado na cidade, os personagens são seres que moram no lixo e dele extraem a sobrevivência. ‘‘Nosso desafio foi o de humanizar o lixo’’, diz o roteirista e diretor Nini Beltrame. Ele divide a batuta com Julio Maurício e Nazareno Pereira.
Para a criação dos objetos, Julio Maurício e Nazareno Pereira foram buscar referências nas obras dos artistas plásticos Max Ernest, Miró e Kandisnsky. As 14 cenas do espetáculo evidenciam a violência no cotidiano. Não há uma linearidade na história, mas uma complementariedade no tema da manipulação dos direitos humanos. A relação entre música e cena possui um papel preponderante no espetáculo, imprimindo lirismo e poesia às imagens. O pesquisador musical Ricardo Tagliari agrupou propostas sonoras. Foram selecionadas músicas de Tchaikowsky, Dead Candance, Uakiti, Ruyichi Sakamoto, entre outros.
Outro destaque de ‘‘Livres e Iguais’’ é a iluminação feita com lâmpadas de automóveis para as cenas do teatro de sombras. Os personagens do teatro de bonecos são sempre arquetípicos, não há especificação na identidade dos bonecos. Numa das cenas, uma bailarina (do bem) tenta ensaiar, enquanto é impedida por um homem (do mal). As leituras são infinitas.
Relativizando o tempo, os movimentos dos bonecos são propositadamente lentos. A técnica de manipulação de bonecos exige do ator-manipulador precisão, porque ele se expressa pelo objeto. Em sua definição precisa sobre a arte de formas animadas, Beltrame diz: ‘‘Boneco faz aquilo que o ator não consegue fazer’’. No caso, a bailarina dá rodopios inimagináveis para uma bailarina de carne e osso executar.
A estréia de ‘‘Livres e Iguais’’ aconteceu em junho de 1999. O grupo abiscoitou duas premiações nos festivais de Florianópolis e São José dos Campos (SP) pelo conjunto de atores, concorrendo com atores ‘não reciclados’. No próximo mês, ‘‘Livres e Iguais’’ será apresentado na 1ª Bienal Internacional de Artes da Marionetes, em Paris. A peça conta com os seguintes atores-animadores: Ana Paula Possap, Júlio Maurício, Leon de Paula, Nazareno Pereira e Valdir Silva.

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