'Subversão pela diversão'
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Marian Trigueiros<br> Reportagem Local 
Cansada de encontrar mensagens que considerava absurdas e sem nexo nos biscoitos da sorte da comida chinesa, a administradora Marcella Costa, de 27 anos, de São José dos Campos (SP), criou o "SAC de reclamações das mensagens do biscoito da sorte", marcado para o dia 4 de fevereiro de 2050. "Um dia pedi comida chinesa de uma franquia famosa e num biscoito veio escrito assim: 'Não aja como uma rã sentada no fundo do poço'. Achei aquilo sem sentido, muito generalista, assim como as outras mensagens e o horóscopo", justifica.
Dentre aqueles que confirmaram, ela comenta que a brincadeira resultou em algumas amizades de pessoas que se identificaram com o evento. "Este é o propósito desses eventos fakes: uma forma de sair da realidade, uma subversão para diversão. É tanta coisa acontecendo: corrupção, inflação, chefe chato, família complicada. Então torna-se é uma válvula de escape das tensões do cotidiano", pontua.
O funcionário público de Bragança Paulista (SP), Roberto José Gomes, de 28 anos, é outro que fez novas amizades após criar um evento. Ele pegou uma frase da música conhecida na voz da dupla Chitãozinho e Xororó e já possui 3,5 mil pessoas confirmadas para a "Expedição para saber se o rancho fundo é bem pra lá do fim do mundo".
Gomes diz que a ideia veio de uma brincadeira com uma prima quando começou essa onda de confirmar presença em eventos. "No primeiro momento, a ideia era criar um evento tirando uma parte de alguma música conhecida e antiga. Logo pensei no 'Rancho Fundo', pois não tinha visto nenhum evento parecido. Entrei na brincadeira só pela zoeira mesmo, para fazer algo divertido no face com os amigos, já que estavam confirmando presença em eventos assim."
Para quem esperava, no máximo, cem pessoas confirmadas, ele se surpreendeu com o número de usuários do Facebook que entraram na brincadeira. "Ainda bem que não houve nenhum lado negativo como ofensas ou algo parecido."
Mas nem só de brincadeira são feitos esse eventos. O paisagista Jefferson Seleprim, de 20 anos, de Porto Alegre (RS), preocupado com a falta de água no estado de São Paulo, sobretudo na capital, criou o evento "Mutirão para levar água para os paulistas". "Eu estava assistindo à televisão e escutei falando sobre a falta de água no Sudeste. Pensei, então, em fazer uma brincadeira com os paulistas, mas também, para as pessoas se conscientizarem de que o assunto é sério mesmo, e que o problema não é somente em SP, mas no Brasil inteiro. Temos que racionar água, não interessa em qual estado moramos", enfatiza.
Como resultado, ele espera que as pessoas entendam o propósito do evento e parem de desperdiçar água e poluir os rios. "Não fazia ideia de que tanta gente iria se interessar pela brincadeira. Mas, gostaria mesmo que as pessoas mudassem de comportamento", desabafa o jovem.


