Um grupo de jovens classe média – todos têm casa, comida e roupa lavada – reúne-se na esquina de uma rua e ali, na porta de uma loja de conveniências, discutem sobre a vida, os anseios, os sonhos. Como uma sombra sempre presente, está a frustração. A necessidade quase doentia e mortal de quebrar as amarras e sair para o mundo. Nesse ponto nevrálgico de uma cidade de interior, se traduz a asfixia da alma.
Esta é a mola mestra de ‘‘Subúrbia’’, peça que faz hoje sua estréia no 10º Festival de Teatro de Curitiba. A montagem estreou há dois meses em São Paulo e chega a Curitiba no palco do Guairão. O texto do norte-americano Eric Bogosian não traz um olhar contemplativo ou generoso sobre essas criaturas em tormento. Pelo contrário, como afirma o diretor Francisco Medeiros:
‘‘É olhar vertical sobre o ser humano. Um olhar límpido, quase de um cirurgião, de operador que abre, disseca e vê o que tem que ver’’.
O elenco formado por nove atores, foi selecionado a dedo pelo diretor. Ele conta que consumiu meses de leituras até chegar ao grupo coeso e apaixonado que ele procurava. ‘‘Não sei fazer teste, não gosto e não queria testar ninguém’’, argumenta.
A depuração através do tempo foi natural. ‘‘Queria sentir a entrega incondicional do elenco e que ele tivesse razoável experiência teatral, apesar da idade’’, explica. O processo levou ao resultado que Medeiros perseguia: ‘‘Todos eles são todos formados, batalham. E a obra exige quase um atleta do coração, do corpo e do intelecto, porque os personagens estão em frenética busca de algo, por mais que não consigam sair do lugar’’.
A atriz Karina Barum entende que o espetáculo traz à tona o descompasso das pessoas que muitas vezes ficam no embate entre provar a si mesmas que podem conquistar outras esferas, e, pior ainda, provar isso aos outros. ‘‘A peça fala muito da vida, sobre o que a gente faz aqui? Eles estão numa esquina, numa redoma, moram no subúrbio. Minha personagem, que está sarando das drogas, quer se enquadrar na sociedade em que vive, nesse amor que tem por esses amigos adolescentes’’.
O espetáculo fala profundamente sobre o ser humano e daí causa estranheza nuns e fascinação em outros. Karina Barum conta que sua mãe saiu chocada do teatro, mas a avó de quase 80 anos, ficou encantada. ‘‘‘Subúrbia’ fala de vida o tempo todo e de morte no subtexto. É um mergulho no ser humano’’, considera.
O ator Marcos Damigo vê no marasmo existencial desses jovens uma contradição, porque o que eles têm vitalidade, almejam outros espaços mas não conseguem sair do lugar. ‘‘Eles são meio condenados a viver nesse lugar’’, considera. Há um limbo, alguma coisa prendendo-os e o contraste é ainda maior porque um deles saiu dali e conheceu o sucesso como cantor. Essa visita depois de um show cai como um objeto interplanetário no cotidiano dos garotos.
Damigo fala sobre a ‘‘perturbação do vazio’’. Porém, assim como o espetáculo tem momentos de extrema crueza, também tem sequências hilariantes. Nem tudo é somente cinza, embora o autor Bogosian tenha sido ‘‘um pouco comparado’’ a Tchecov por essa ‘‘perturbação no vazio, esse movimento no nada’’.
Para o diretor o local onde o grupo se encontra é por demais inspirado pela metáfora que encerra: a esquina. ‘‘Eles transformam esse beco a céu aberto no seu lar, naquilo que é inóspito, não aconchegante. São todos filhos de classe média, eles dizem isso, mas escolheram a rua como o seu berço’’. Essa esquina teria uma saída? Medeiros não titubeia: ‘‘Claro que tem. A peça termina com o dia amanhecendo. Sempre vai amanhecer, por mais escura que seja a madrugada’’.
‘‘Subúrbia’’, de Eric Bogosian, direção de Francisco Medeiros. Pony, astro da música jovem, volta para rever os amigos numa cidade suburbana. Guairão, hoje, às 21h30 e amanhã às 20 horas.

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