SUBSTANCIAL
Nunca ouvimos o rio.
Olhamos
Tocamos.
Alçamos suas águas na madeira dos remos.
Lembramos a lua prisioneira de sua imagem.
Mas, nunca ouvimos o rio:
O ouvir surdo. O ouvir lento e desigual de seu lamento.
O marulhar secreto e reto de sua sinuosidade.
Não escutamos o arrastar de muito tempo.
Não ouvimos sua insistência franca,
nem as sombras que conjugam seu passado.
Do rio, sabemos o que é solidão escavando portais.
Criando fronteiras que se dispersam na embarcação
(que flutua.
Nunca ouvimos o rio.
Certo é que nos deparamos com sua distância
alcançada em meio ao nosso caminho.
Mas o rio guarda vestígios de nossa passagem.
Ele compartilha os nossos arredores,
bancos de madeira e vasos com flores.
O rio acompanha trilhas secretas sem alarde
e esconde as armadilhas dos cipós.
Não segue adiante, nem ao revés.
O rio está sob nosso passo:
Largos, curtos, gigantes, confusos.
É nosso braço estendido invadindo suas águas.
São nossos olhos que desenham sentidos.





