ReproduçãoO deus Krishna guiando os cavalos de Árjuna na batalha das batalhasO ‘‘Mahabharata’’, considerado o poema épico mais longo que a humanidade produziu, guarda dentro de si alguns belos tesouros. Entre eles destaca-se o ‘‘Bhagavad Gita’’, texto que atravessou cinco milênios alegrando os mais distintos leitores. Ele narra o diálogo entre o deus Krishna e o guerreiro Árjuna no meio de um campo de batalha que decidirá o destino do mundo, onde Krishna expõe os preceitos mais valiosos da filosofia hindu.
‘‘Bhagavad Gita’’ é apenas um dos capítulo (o de número 63) do extenso ‘‘Mahabharata’’ composto de cem mil estrofes divididas em cem capítulos. De tradição oral, ‘‘Mahabharata’’ foi escrito em sânscrito por volta de 3.000 a. C. narra a histórias dos descendentes do rei Bhárata e ao mesmo tempo a história da Índia védica. Os indianos costumam dirigir-se ao seu próprio país não como Índia, mas como Bhárata.
‘‘Marabharata’’ conta a história do conflito entre os herdeiros de um mesmo reino. Uma das famílias, a do guerreiro Árjuna, trapaceada, é desprovida de poder e terras sendo obrigada a vagar pela Índia. Com o tempo a guerra torna-se inevitável - na realidade a batalha interior de cada homem. Quando Árjuna se coloca a frente de seu exército e vê do outro lado parentes e amigos, toda sua força se esvai e o arco cai de suas mãos: ‘‘É melhor viver no mundo / como o mais pobre mendigo / do que ter ouro manchado / com o sangue dos amigos / ou dos mestres instrutores / mesmo sendo traidores’’. Krishna, que dirige seus cavalos brancos, congela o tempo e começa e expor a Árjuna os motivos para que ele não desista da guerra. Krishna vai revelando os preceitos morais, religiosos, filosóficos e transcendentais do hinduísmo. Estas palavras de Krishna é o ‘‘Bhagavad Gita’’. Nas palavras de Rogério Duarte ‘‘é uma proposta sobre a condição perene do ser, um método científico-filosófico para obter a libertação das misérias desta vida’’.
Rogério Duarte, um dos mentores intelectuais no movimento tropicalista nos anos 60, debruçou-se sobre este livro sagrado durante vinte anos na tarefa de traduzí-lo diretamente do sânscrito para a língua portuguesa. O resultado desta devoção acaba de chegar nas livrarias lançado pela Editora Companhia das Letras: ‘‘Bhagavad Gita - Canção do Divino Mestre’’.
A edição vem acompanhada de um CD com 32 canções compostas e interpretadas por vários músicos da música popular brasileira utilizando como letra fragmentos de ‘‘Bhagavad Gita’’ na versão de Rogério Duarte. Idealizado por Carlo Rennó, o disco é um tributo ao poema milenar e ao mesmo tempo uma prova da versatilidade da música brasileira. Entre os artistas que integram o projeto estão Chico César, Gilberto Gil, Tom Zé, Arnaldo Antunes, Arrigo Barnabé, Cássia Eller, Lenine, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Walter Franco, Siba (Mestre Ambrósio), Oliveira de Panelas, Gal Costa, Belchior, Péricles Cavalcanti, Jussara Silveira, Ana Amélia, Tomaz Lima e João Duarte.
Em seu trabalho de tradução, Rogério Duarte procurou trazer o texto sânscrito o mais próximo possível para a língua e a cultura popular brasileira. Sua escolha foi a de substituir a complexa estrutura das clássicas estrofes da poesia sânscrita por versos de sete sílabas (redondilha maior) e de dez sílabas (decassílabo). A primeira encontrada na literatura de cordel, a segunda utilizada por Camões nos ‘‘Lusíadas’’. Uma escolha notável. Em suas palavras o critério básico da tradução ‘‘foi manter o máximo de fidelidade ao original sânscrito, evitando ‘poetizar’ a Bhagavad Gita, como tem acontecido em tantas traduções que acabam por mutilar a complexa informação científica, filosófica e psicológica desse grande clássico do bramanismo hindu’’.
É praticamente impossível atravessar as páginas de ‘‘Bhagavad Gita’’ sem sair comovido. A visão da existência humana narrado por Krishna é de aquecer a parte mais árida do coração. A necessidade do desapego material, a necessidade do desapego aos resultados das ações empreendidas, a necessidade do domínio sobre a mente para não se tornar escravo dela, as várias vidas que um mesmo ‘‘eu’’ precisa passar para libertar-se do eterno retorno, a não-violência, a supremacia da alma em relação ao corpo, etc, compõem um leque de atitudes para a transcendência do ser.
O escritor Aldous Huxley em um texto que introduz uma outra edição do ‘‘Bhagavad Gita’’ - a tradução de Swami Prabhavananda e Cristopher Isherwood realizado do sânscrito para o inglês publicado no Brasil pela Editora Shakti -joga luz sobre este poema sagrado que integra integra a Filosofia Perene. Vale citar um pequeno trecho: ‘‘As escrituras originais da maior parte das religiões são poéticas e não sistemáticas. A Teologia, que geralmente toma a forma de um comentário racional sobre as parábolas e os aforismos das escrituras, tende a fazer seu aparecimento num estágio posterior da história religiosa. O Bhagavad Gita ocupa um posição intermediária entre a escritura e a teologia, pois combina as qualidades poéticas da primeira, com a regularidade da segunda’’.
Em seu diálogo, Krishna mostra a Árjuna os três modos que constituem a natureza da matéria: bondade, paixão e ignorância. Estes três modos estão sempre competindo entre si. Nas palavras de Krishna, ‘‘Quem aceita igualmente / o prazer e o sofrimento / e vê com os mesmos olhos / um seixo, uma barra de ouro, / ou qualquer torrão de terra; / quem ouve do mesmo modo / um louvor ou uma calúnia / e não se deixa alterar / quando honrado ou desonrado; / quem do mesmo modo trata / os amigos e inimigos, / e abandona os compromisso / com as ações fruitivas; / diz-se então que tal pessoa / é transcendental aos modos / da energia material.’’

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