Suavidade animada
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de junho de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
São inúmeras as tentativas de encenadores levarem a linguagem dos desenhos animados para os palcos. Converter em linguagem cênica elementos de uma ludicidade mágica não é algo fácil. Mas também não é impossível.
A companhia alemã Erfreuliches Theater Erfurt (E.T.E.), presente no FILO 2006, deixa isso evidente no espetáculo A Rainha das Cores (The Queen of Colours). Unindo o milenar teatro de sombras e a tecnologia contemporânea, consegue criar uma animação com os dois pés na atmosfera mágica.
A Rainha das Cores coloca, num mesmo plano, suavidade e humor para narrar a história de uma rainhazinha isolada num mundo desprovido de cores. Para afastar o tédio, ela começa a provar a possibilidade das cores. Nada mais que experimentar o mundo, algo semelhante ao vivido por toda criança em período de descobertas.
Na montagem, as cores se transformam em entidades que deixam o abstrato de lado para se entrarem no mundo concreto. Elas deixam de ser domínio dos olhos para ocuparem outros sentidos, multiplicando os significados. E o principal, esse processo não percorre os caminhos da racionalidade, mas da fantasia.
A cumplicidade que a rainhazinha (personagem figurativo) estabelece com ao desenhista e o músico (personagens humanos) no palco, se prolonga diretamente para o público. Assim, a rainhazinha também estabelece uma relação de cumplicidade, favorecida pela total empatia, com o espectador. Mesmo que não se dirija a ele.
O trabalho da companhia Erfreuliches Theater Erfurt consegue realizar uma tarefa pouco usual: fazer de uma adaptação algo mais completo que o original. Partindo da obra homônima da escritora Jutta Bauer, o espetáculo confere à história uma vitalidade muito maior daquela encontrada nas páginas do livro.
A proximidade de A Rainha das Cores do universo infantil, onde a simplicidade contém muito mais informação que a complexidade, faz o espetáculo um passaporte para o encantamento. Um bom exemplo para o fato de que, para se contar uma história, não são necessários malabarismos narrativos. É preciso apenas sentidos nos lugares onde eles fazem sentido.


