Rosângela Vale























Tecidos leves e fluidos sempre foram sinônimos de dias quentes, e ao primeiro sopro de vento frio desaparecem do guarda-roupa, dando lugar a roupas mais encorpadas. Neste inverno, entretanto, a moda inverteu as regras do jogo: o que se viu nos desfiles de lançamento das coleções outono-inverno foi uma profusão de vestidos transparentes, capazes de fazer qualquer mulher tremer de frio (e de pudor) diante da idéia de vesti-los em noites gélidas. No rastro das tendências internacionais, os estilistas brasileiros não titubearam em trocar o inverno pelo verão, incluindo sobreposições para driblar as baixas temperaturas.
‘‘Nós, brasileiros, trabalhamos com tendências invertidas, pois nos baseamos nas coleções internacionais de verão para criar o nosso inverno’’, explica o estista Marcelo Quadros, da Ellus. Segundo ele, as transparências apontam para o ressurgimento do romantismo na moda, pois vêm com babados e drapeados. ‘‘No verão passado, elas tinham uma linguagem diferente, uma silhueta mais seca e longilínea’’, observa. Os sleep-dresses da coleção de inverno da grife são feitos em mousselines e georgettes lisos ou com pequenas estampas orientais de ramos, nas cores cinza e preta. Marcelo sugere usá-los com meias opacas, camisola fechada ou body de renda com a alça do sutiã propositalmente aparecendo, e por cima, casaco 7/8, que também pode ser de crochê.
De acordo com a estilista da Viva Vida, Zelana Davidsohn, as transparências vieram para quebrar a rigidez dos tecidos atuais e dar mais leveza à mulher, que no inverno vai poder optar por um terno bem estruturado ou uma etérea combinação. ‘‘A moda tem privilegiado as silhuetas andróginas e agora está resgatando a feminilidade’’, diz. Ela usou chiffon de seda pura e mousseline para criar saias e vestidos inspirados na nostalgia dos anos 20, cortados em viés, em dois comprimentos: na altura dos joelhos e no meio da canela. Alguns modelos são bordados em canutilho prata ou dourado sobre fundo preto.
Segundo Zelana, as sobreposições e o contraste de texturas são os principais aliados das transparências, responsáveis por um visual moderno e um estilo diferenciado. ‘‘A mulher pode jogar um coat de veludo ou um tricô de lurex sobre o vestido, e por baixo, uma lingerie maravilhosa ou uma camisete fininha. As mais despojadas têm a opção de usar dois vestidos transparentes de cores contrastantes’’ , ensina.
Babados, flores e folhas compõem o universo transparente da Forum, que aposta nas meias-calças opacas e no modelo arrastão para cobrir o estritamente necessário. Sobre as combinações em georgette, chiffon e mousseline de seda pura, a grife sugere casaco 7/8, twin-set ou blazer. Nos pés, bota cano-longo ou sandália de plataforma.
Mas nem só de chiffons e mousselines são feitas as transparências do inverno. As malhas trabalhadas também estão em alta, em tramas que ora revelam, ora escondem, num empolgante jogo de sutilezas. O vestido longo de tricô telado em chenise, do mineiro Renato Loureiro, com listras diagonais e barra assimétrica, é um dos bons exemplos da técnica apurada no trabalho com o tricô, outra forte tendência da estação.
A M. Officer aproveitou o competente trabalho que vem desenvolvendo com fios, e deu várias texturas às transparências da coleção, que aparecem em pontos bem abertos no bouclê e no chenile, em finíssimas tramas de rayon que imitam um tule, e em rendas de acrílico e lurex. Também há modelos em chiffon, com drapeados que surgem a partir de sobras de tecidos. ‘‘É o que há de mais moderno em termos de modelagem’’, diz Carlos Miéle, proprietário da grife, que também aposta nas sobreposições para tirar as transparências das passarelas e torná-las viáveis na vida real.
Investir na tendência agora, além de garantir um look fashion , pode ser um ótimo negócio. Os estilistas garantem que as transparências têm folêgo para chegar até o inverno de 98, conseguindo ser unanimidade - mais uma vez - nas próximas coleções de verão. É ver para crer.

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