Perto deles, este Iron Man não passa de um aprendiz, e ainda assim em edição faz-de-conta. Eles não, eles são a Iron Band, de ferro fundido mesmo, atestado e comprovado, aquele que dá origem ao aço, aquela liga à prova de qualquer tipo de desgaste ou corrosão: drogas legais ou ilegais, simpatia pelo diabo, egos superinflados, brigas internas, transgressões, mitos e lendas, escândalos sexuais, períodos de entressafra, ação do tempo, fadiga do material. Diga um obstáculo, e eles já saltaram. E cruzaram fagueiros a linha mais além do bem e do mal.
Passadas mais de quatro décadas do nascimento da banda, os Rolling Stones são o mais improvável e por isso mesmo o mais sensacional exemplo de hiperatividade sexagenária. Quem quiser mais uma prova, ou simplesmente se tornar voyeur da atrevida lua de mel entre o melhor cinema e o melhor rock, a visita obrigatória é ao documentário ''Rolling Stones - Shine a Light'', de Martin Scorsese, em lançamento a partir de hoje em Londrina (veja a programação de cinema na página 2).
E se você é não é fã dos travessos e talentosos rapazes, é bom não se aproximar do inspirado filme de Scorsese, porque ele não é outra coisa senão uma exaltação festiva, sem complexos ou questionamentos, uma entrega de corpo e alma à laboriosa musicalidade destes monstros do rock. Não foi por falsa modéstia que Scorsese, apesar das aparições que faz no início e no fim do concerto (na verdade foram dois no teatro Beacon de Nova Iorque), colocou toda sua experiência de notório mestre e a prodigiosa equipe que o acompanha unicamente a serviço de Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood. Para que brilhassem na tela grande em luxuoso Dolby. Nada mais.
E nada menos. Porque é impossível não se deixar levar pela torrente de energia e vitalidade contida em cada fotograma de ''Shine a Light''. Aqui se trata de uma pura e simples atuação, tanto que falar sobre o filme seria bem mais tarefa do crítico musical. Mas por outro lado seria injusto não mencionar que todas as decisões tomadas para a gravação do concerto se revelam extremamente acertadas. Desde a eleição do cenário (a principio cogitou-se do concerto do Rio, idéia afastada pelo gigantismo operacional), a disposição das câmeras, a iluminação, a fotografia e a montagem destacando a cada momento a magnética entre os músicos e a platéia - o filme desliza com a mesma agilidade que caracteriza qualquer concerto da banda.
É nos duetos que Scorsese encontra seus melhores momentos, especialmente no blues com a presença de Buddy Guy - os planos são magníficos, como o rosto do bluesman fixo em Jagger. Também a passagem vulcânica de Christina Aguilera pelo palco é momento de puro cinema. Mas é evidente que estamos muito distantes da cinebiografia densa, magistral que Scorsese fez do ícone Bob Dylan em ''No Direction Home'', exibida apenas na tevê a cabo. O trabalho que Scorsese realizou aqui, muito consciente dos limites auto-impostos, não foi o do artista investigativo acerca dos efeitos perduráveis de uma velha revolução roqueira, mas o de um técnico superdotado, um ardente e ainda extasiado fã de rock and roll.

mockup