Steven Spielberg: contatos imediatos com a magia do sonho
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de maio de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Cannes, especial para a Folha 2 
De vez em quando, em maio, Steven Spielberg dá uma passada pela Riviera Francesa. Não vem passear, vem a trabalho. Toda vez que isso ocorre, ele estremece um pouco os alicerces do cinema mundial. Não que sua missão primordial seja essa. Ele não faz de propósito. Mas acontece, naturalmente. Há 34 anos, em 1982, por exemplo. Sabem o que houve ? Ele trouxe "E.T" para uma première mundial fora de competição. O resultado instantâneo foi a maior standing ovation já presenciada no Palais, com o filme iniciando aqui a carreira de um dos maiores fenômenos de bilheteria (e crítica) de todos os tempos. E o que mais? Há três anos, presidindo o júri, o cineasta de tantos filmes censura livre surpreendeu defendendo a Palma de Ouro ao adulto, explicito e polêmico "Azul é a Cor mais Quente", e ainda criou outra Palma inédita, dividida entre as duas atrizes.
No fim de semana ele voltou à Croisette para mostrar seu título mais recente, "The BFG" (The Big Friendly Giant" "O Bom Gigante Amigo", título do lançamento no Brasil previsto para 28 de julho). Provavelmente Spielberg era o único candidato possível para levar à tela a popular obra infantil do ficcionista galês Roald Dahl ("A Fantástica Fábrica de Chocolate", "James e o Pêssego Gigante") publicada exatamente no ano em que "E.T." chegava às telas. Nesta fantasia sobre a garota Sophia (Ruby Barnhill) e o gigante amigo das crianças (Mark Rylance) ele encontra um espelho das ideias artísticas que o converteram no maior criador de fantasias de Hollywood. A infância de imaginação escapista e heroica é encarnada pela menina órfã, que descobrirá de onde surgem os sonhos e que na terra dos gigantes nem todos os grandalhões são malvados que devoram meninos e meninas.
A comovente história sobre o encontro de dois seres solitários adquire dimensão muito pessoal na perspectiva sempre visionária de Spielberg, nesta adaptação de Melissa Mathison, autora também do roteiro de "E.T." (falecida em novembro de 2015). E no plano formal, "B.F.G." oferece um passo além nas ilimitadas possibilidades da captação digital de imagens, encurtando novamente a distância entre realidade e virtualidade.
Uma vez que Spielberg ficou popular e metaforicamente conhecido, e com justiça, como fabricante de sonhos, tem sentido que o protagonista dessa história seja literalmente isto: o gentil gigante que se dedica a capturar e colecionar fantasias, engarrafá-las e transferi-las para mentes alheias. Mais ou menos como Spielberg com o espectador. Na longa, obviamente concorrida e muito amável entrevista coletiva que se seguiu à projeção no sábado, um tranquilo e quase zen Spielberg falou, é claro, sobre seu filme, seus sonhos, seu cinema...
"MEU PRIMEIRO FILME DE AMOR"
"Realizar este filme me fez voltar a meus primeiros tempos como realizador. O problema com filmes históricos, como Lincoln e A Ponte dos Espiões, é que você não tem como usar a imaginação. Aqui, com BFG, não há nenhuma barreira, há liberdade total. É um prazer do princípio ao fim. BFG é um filme que defende certos valores, como a tão importante aceitação das diferenças de cada um. É também a primeira vez que falo de uma história de amor, ainda que ela seja diferente das habituais: aqui, é como se fosse uma história de amor entre um avô e sua neta. Num certo sentido é meu primeiro filme de amor".
"Procuro apenas boas histórias para contar. E aquelas que escolho são sobretudo baseadas em experiências pessoais. Por exemplo, BFG partiu de um livro que li muito para os meus sete filhos. Enquanto lia, me divertia imaginando como seria se me transformasse em gigante. Hoje, me divirto lendo para meus netos..."
"Se tenho sonhos? É claro, como todo mundo. Mas meu sonho é sempre meu próximo filme, é o que eu estou sempre correndo atrás, é o meu processo criativo, aquele pelo qual sou apaixonado. (...) É sempre necessário acreditar. Em nosso tempo, precisamos de magia, é ela que nos dá esperança. É o que fazem os filmes: dar esperança às pessoas. É tudo de que precisamos."


