A geração dos anos 80 que curtiu a banda inglesa Siouxsie and Banshees vai ter o que festejar durante o 8º Festival de Teatro de Curitiba, além dos espetáculos anunciados pelo evento. Steven Severin, líder e fundador do grupo, estará na cidade prestigiando a apresentação do Grupo Satyros, que participará da mostra paralela (fringe) com ‘‘Os Cantos de Maldoror’’.
Severin compôs a trilha sonora do espetáculo que foi transformada em CD, e será lançada em Curitiba. O músico fez questão de dar ao disco o nome da montagem em português. Ele virá da Inglaterra a Curitiba especialmente para este fim.
Também aproveitará para assistir ao espetáculo, mas não terá tratamento especial - percorrerá todo o trajeto ritualesco como os demais espectadores: tomará um ônibus totalmente vedado no centro da cidade e irá para um casarão na periferia, onde acontece a encenação.
Os atores do Satyros têm verdadeira paixão por Severin. A amizade entre eles nasceu por iniciativa do músico inglês que foi assistir à ‘‘Filosofia na Alcova’’, em Londres, e no dia seguinte remeteu um telegrama ao grupo, cumprimentando os atores pelo trabalho e, sem rodeios, sugeriu um encontro para conversarem sobre futuras parcerias.
‘‘Isso foi em 1993 e desde então a gente veio namorando essa idéia, que só se concretizou ano passado, quando estreamos com ‘Maldoror’ em Curitiba’’, conta Ivam Cabral. A música ficou pronta meses depois, mas a dificuldade era arranjar patrocínio para transformar a obra de Latreamont em realidade teatral.
A ousada proposta dependia de patrocínio de 350 mil dólares. Durante quatro anos os atores tentaram levantar recursos, sem sucesso.‘‘Andamos por trilhões de lugares apresentando o projeto na tentativa de buscar fundos, mas não aconteceu. O lado financeiro vetou aquilo que tínhamos imaginado’’, narra Cabral.
Mesmo assim a montagem - densa, pesada, sem dar margem às levezas - guarda uma magia especial, ampliada com a participação de Steven Severin. ‘‘Ele é uma pessoa maravilhosa, trabalhou com grandes diretores do cinema, tem um trabalho profundo em pesquisas e isso nos interessa bastante. Estamos superansiosos esperando-o.’’
O formato atual envolve o espectador em mistérios - um ônibus com os vidros vedados transporta o grupo até um barracão, num lugar desconhecido, onde transcorre a montagem - mas originalmente a idéia era muito mais ambiciosa. Um teatro seria construído sobre uma estrutura de aço e recoberto com material inflamável.
Quando a platéia - entre 30 a 40 pessoas - deixasse o local, ele pegaria fogo. ‘‘Imagine, iríamos queimar um teatro a cada noite. Falando assim parece uma coisa absurda, mas não é. Pretendíamos viajar com essa estrutura’’, comenta o ator.
Steven Severin acompanhou por certo tempo esse processo para se levantar recursos, tentou inclusive vender o projeto, sem êxito. ‘‘Era algo muito grande’’, concorda Ivam Cabral. O resultado final foi outro mas nada impede que o trabalho seja visto com simpatia. ‘‘A gente tem muito carinho por esta peça; ela parece iluminada’’, conta o ator.
Como o Satyros tem um site na Internet ([email protected]), divulgou ali a estréia de ‘‘Os Cantos do Maldoror’’, em Curitiba. O grupo recebeu mensagens de pessoas interessadas na adaptação do romance, de várias partes do mundo, inclusive do Japão. Mas será em Edimburgo que os atores farão sua primeira apresentação internacional, no segundo semestre do ano.

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