Rio, 09 (AE) - O Brasil e, especialmente, a Praia de Copacabana, na zona sul do Rio, certamente entrarão em alguma futura peça do dramaturgo inglês Steven Berkoff. Ele veio ao Rio para passar o ano-novo e aproveitou para prestigiar a estréia carioca da peça Decadência, de autoria dele, estrelada por Beth Goulart e Guilherme Leme, que, hoje, iniciou carreira no Teatro Glória. A peça foi um dos grandes sucessos da última temporada paulista e Berkoff credita esse resultado à universalidade do tema abordado.
"A decadência acontece em todos os países e com todas as pessoas", disse Berkoff, na manhã de quinta-feira (06), na volta de uma das muitas das caminhadas que fez nas areias de Copacabana nos últimos dias. "Há algo na peça que fala também de gente e é compreendido em qualquer língua e por todo tipo de público", continua. "Esta é a razão da boa resposta que a peça teve do público paulista, de quem a viu na Inglaterra no teatro ou em filme e que, espero, vai se repetir aqui."
No caso de São Paulo, ele destaca a atuação da atriz Beth Goulart, que o deixou agradavelmente impressionado. Mas nada chamou mais a atenção dele no Brasil do que o contraste acintoso entre os ricos e os pobres brasileiros. "Ricos e pobres existem na Inglaterra também, mas os ricos daqui são mais ricos e os pobres, mais pobres que lá", explica ele. "Além disso, aqui, as pessoas anunciam, exibem a sua riqueza até fisicamente, dando a impressão de que é necessário cada um mostrar o que e quanto tem para gastar."
Berkoff conta que fez questão de circular entre ricos e pobres, embora reconheça que a pele vermelha de sol denuncie a condição de turista. Mesmo assim, ele estebeleceu, para uso próprio, diferenças entre as classes econômicas brasileiras. "Enquanto os ricos são gordos, lânguidos e portam um rosto sem expressão, os pobres têm vida, choram, cantam, riem e têm um corpo bonito, trabalhado em exercícios ou na lida diária", diz ele. "Nunca vi tanta criança gorda como as ricas daqui, pois, na Inglaterra, desde cedo, a criança deve cuidar-se, ter responsabilidade e trabalhar duro, mesmo as ricas."
O dramaturgo gosta de observar as pessoas e costumes por onde anda e, depois, usar o que aprendeu como elementos das peças ou atuações no palco. Isso porque ele não consegue escolher qual atividade lhe dá mais prazer, se escrever peças ou atuar nelas. "O trabalho do escritor é duro, construído dia após dia, aos poucos, com um resultado que vem lentamente", define ele. "Já o de ator é imediato, é maravilhoso estar diante de uma platéia, dominá-la, dizer o que pensamos e sentimos e, depois, ser aplaudido e entrar em comunhão com ela"
continuou. "É melhor que cocaína... imagino eu, pois não conheço essa droga."
Berkoff tinha altos planos para a última de semana no Rio. Confessando gostar muito de samba, perguntou qual a melhor escola para visitar e ficou feliz em saber que elas estão na reta final do carnaval e, por isso, esta é a melhor época para conhecer um ensaio. Berkoff pretendia ainda visitar uma favela e se espantou ao saber que, em Copacabana, moram quase 300 mil habitantes. "Como conseguem viver num espaço tão estreito entre o mar e a montanha?", surpreendeu-se.
Apesar da surpresa, não é a primeira vez que o dramaturgo vem ao Brasil. Em 1987, esteve aqui rodando o filme "Prisioneiro do Rio", sobre Ronald Biggs, um dos muitos papéis de vilão que fez no cinema (trabalhou também em "Octopussy", da série 007, "Laranja Mecânica", de Stanley Kibrick, e "O Legionário", estrelado por Claude Van Damme). Em tempo: Berkoff não lembra nada esses bandidos. É afável e gentil, contrastando com o físico imponente, de mais de 1,80 metro de altura, e parece ter menos que 63 anos. Ele esteve também em São Paulo, em 1999, quando trouxe o monólogo One Man Show, uma antologia de vilões de William Shakespeare.
De volta à Inglaterra, Berkoff não tem planos muito definidos. "Sou um ator em busca de trabalho", diz. Pode ser que faça o segundo filme como diretor (o primeiro foi a adaptação da peça Decadência) ou escreva um novo texto para atuar sozinho no palco. Ele confessa que esse é o jeito preferido dele de estar em contato com o público. "É bom quando há outros atores no espetáculo porque ocorre uma troca, mas, sozinho, você tem de dar-se mais, mas também o público é todo seu", confessa. "E é mesmo por vaidade que prefiro assim."

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