Nesses tempos de medo, ansiedade e reflexão, Hollywood poderia levar a sério a intenção de produzir menos violência torpe e gratuita e, consequentemente, filmes com temas mais amenos, gentis e tolerantes. Como este ‘‘Lembranças de um Verão’’, outra recomendável estréia nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema nesta página). Dirigido por Scott Hicks (‘‘Shine’’), o filme é baseado numa das histórias de Stephen King com ambições literárias mais efetivas, na linha de ‘‘Stand By Me’’.
Quando Bobby Garfield (David Morse), agora um fotógrafo de sucesso, recebe uma velha luva de beisebol, lembranças tomam contam dele. De volta à sua vizinhança suburbana para o funeral de um amigo de infância, ele entra no túnel do tempo e ‘‘Hearts in Atlantis’’ volta a 1960, ao dia do décimo primeiro aniversário de Bobby (Anton Yelchin, ótima estréia), ao tempo e ao lugar onde, quando as pessoas se estressavam ou tinham medo, a imaginação de uma crianca podia fazer coisas mágicas, e a inocência ainda não estava perdida. O garoto, esperto e introspectivo, com uma habilidade incomum para ler a mente das pessoas (o inevitável tempero de King), mora numa pensão com a mãe, pobre e amargurada. O dom extraordinário ele compartilha com um misterioso vizinho recém-chegado, Ted Brautigan (Sir Anthony Hopkins), também ele uma espécie de clarividente e alguém que parece se esconder de alguma ameaça. Geralmente sozinho em casa, Bobby acaba se aproximando do estranho, e a desconfiança inicial dá lugar à amizade e à proteção. Ted
Embora Hopkins esteja excelente como sempre, e represente o único chamariz mais visível para o espectador, inclusive ocupando todo o pôster publicitário, o peso maior de ‘‘Lembranças de Um Verão’’ vem de pequenas coisas e de pequenas pessoas – além de Bobby, há os melhores amigos Sully e Carol. Escrito ao mesmo tempo com argúcia e delicadeza pelo veterano William Goldman (‘‘Butch Cassidy’’), é um conto sobre a amizade, o amor e a perda, sobre como perdoar e como crescer.
O diretor Hicks parece curado dos maneirismos dramáticos de ‘‘Neve Sobre os Cedros’’, e aqui ele é um meticuloso observador de comportamentos e relações, e sabe como extrair do roteiro de Goldman a magia dos encantos da infância. Os valores da produção evidenciam cuidados com detalhes de reconstituição de época, especialmente a fotografia evocativa de Piotr Sobocinski. Apenas a música de Mycahel Danna parece em excesso, bucando a qualquer custo respostas emocionais. (C.E.L.J.)

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