São Paulo, 11 (AE) - Volta e meia a Academia de Hollywood consegue acertar, destacando trabalhos verdadeiramente excepcionais. É o que ocorre este ano com a indicação de Fernanda Montenegro para concorrer ao Oscar de melhor atriz por "Central do Brasil". Não é a regra, mas a exceção. A regra é esquecer atores como Jonathan Pryce, que estava genial em "Carrington", e agora Stephen Fry, que não é menos brilhante como "Wilde", na cinebiografia de Oscar Wilde, que estréia amanhã (12). "Wilde" foi lançado no Festival de Veneza de 1997. Estreou nos Estados Unidos no início do ano passado, o que poderia habilitá-lo a concorrer ao Oscar. Não foi sequer lembrado. Enquanto isso, Tom Hanks pode receber sua terceira estatueta, um recorde, por "O Resgate do Soldado Ryan". A academia prefere astros a atores.
Stephen Fry é a alma de "Wilde". O filme de Brian Gilbert não seria a mesma coisa sem ele. Além de fisicamente parecido com o autor de "O Retrato de Dorian Gray", Fry tem a afetação e a mordacidade que são sempre atribuídas ao escritor. Fry preparou-se a fundo para o papel. Leu a biografia de Richard Ellman, viu os velhos filmes com Robert Morley e Peter Finch como Wilde, fez laboratório com o diretor Gilbert. Esse também fez direitinho a sua lição de casa. O roteiro de Julian Mitchell bebe na fonte da biografia de Ellman. Gilbert participou ativamente da escrita. Não foi atraído por "Wilde" apenas movido pela possibilidade de escândalo. Sabe quem foi o escritor. Não por acaso, Gilbert estudou literatura inglesa em Oxford.
Antes de "Wilde", fez outra cinebiografia - "Tom & Viv", dramatizando a complicada relação do poeta T.S. Eliot com a mulher, a socialite Vivien Haigh-Wood. Vivien sofria de tensão pré- menstrual, que ainda não era estudada, na época. Foi diagnosticada como louca. Na leitura de Gilbert, Vivien, interpretada por Miranda Richardson, era mais genial do que Eliot, mas sofreu o diabo nas mãos dele (e de uma sociedade machista que considerava mulher inferior). Tradição inovada - Também há polêmica em "Wilde". O filme pode ser um tanto convencional, do ponto de vista da dramaturgia - é tradicional, mas não ineficiente. De qualquer maneira, Gilbert inova. Quando o filme começa, "Wilde" está voltando de uma exitosa turnê pelos Estados Unidos e pelo Canadá. Passou um ano dando conferências. Cheio de talento e paixão, um tanto exibicionista, corteja e casa-se com Constance Lloyd. A carreira beneficia-se do impacto da edição de Dorian Gray. O casal tem dois filhos. Tudo parece perfeito, mas uma noite Wilde é seduzido por um hóspede canadense abrigado em sua casa.
A ligação com Robert Ross leva-o a confrontar-se com a condição de ser homossexual. A literatura de Wilde beneficia-se disso, mas não sua vida privada. Ela se constitui cada vez mais numa provocação para a homófoba sociedade vitoriana. A situação complica- se quando Wilde é apresentado a um fascinante estudante de Oxford, Lord Alfred Douglas, Bosie. No filme, Bosie está longe de ser inocente. Como um astucioso garoto de programas, arma uma teia para seduzir Wilde. O escritor é levado ao tribunal pelo pai do rapaz, acusado de sodomia. O resto é história. Wilde foi condenado, Constance deixou a Inglaterra com os filhos e foi viver longe com outro nome. Embora tenha consciência de que sua relação com Bosie é destrutiva, Wilde não resiste e a retoma.
É uma tragédia o que conta Gilbert - a tragédia de um homem vítima de uma época, o decadentismo em voga na virada do século 19 para o 20. O que faz o fascínio de Wilde, não só como autor, mas como personagem, é que nele se fundem o crítico da sociedade e o hedonista, capaz de escandalizar seu tempo. É um bom, não grande, filme. Grande mesmo é Stephen Fry. O ator que Zeca Baleiro homenageou em "Por Onde Andará Stephen Fry?" entende a complexidade de "Wilde" até porque, na vida, também é gay assumido.

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