São Paulo, 24 (AE) - É um filme de extremos. "Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma", que estreou hoje em 340 cinemas de todo o Brasil, constrói-se em boa parte no rosto de Pernilla August. É uma das atrizes mais humanas do cinema atual. Pernilla olha para seu filho, o pequeno Anakin Skywalker, e o espectador sente a onda de ternura que emana da expressão da atriz. Esse é um dos lados da moeda do filme de George Lucas. O outro é Jar Jar Binks, o anfíbio orelhudo. Jar Jar talvez não seja tão divertido quanto deveria ser, mas é um personagem encantador. É pura fantasia. Embora construído sobre um suporte humano (um ator com máscara), foi finalizado no computador. Jar Jar é um ser virtual. Entre o humano e o virtual desenvolve-se o "Episódio 1". É um dos fascínios e talvez seja uma das fraquezas do filme de George Lucas.
Embora tenha arrecadado mais de US$ 350 milhões em pouco mais de um mês, "Episódio 1" já pode, de certa maneira, ser considerado um fracasso. Foi desbancado do topo das bilheterias americanas por "Austin Powers" e "Tarzan". Dificilmente repetirá o fenômeno "Titanic". O público não está indo ver o filme cinco ou seis vezes, como fazia com o de James Cameron. Mas Lucas vai faturar os US$ 550 milhões necessários para fazer o "Episódio 2". Uma pesquisa nos arquivos do jornal "O Estado de S.Paulo" mostra que a série pode ter sido sempre um grande sucesso de público, mas com certeza não o foi de crítica. A má recepção a "Episódio 1" não é uma exceção.
O primeiro "Guerra nas Estrelas", de 1977, foi criticado por sua excessiva fantasia, principalmente porque ainda era recente o impacto de "2001, Uma Odisséia no Espaço", feito nove anos antes. Stanley Kubrick revolucionou a ficção científica, fez ciência tanto quanto ficção e arte. "Guerra nas Estrelas" surgiu sob o signo da desconfiança. Não foi apenas o primeiro filme de marketing, em que vender o espetáculo, propriamente dito, era tão importante quanto vender a parafernália de brinquedos e objetos dele decorrentes. O fato de o cineasta anunciar que aquela era a primeira pedra de uma série de três trilogias (depois, baixou para duas), sendo que se tratava justamente da trilogia intermediária (o filme 1 era, portanto, o 4), acrescentou mais um elemento à desconfiança.
O segundo filme, "O Império Contra-Ataca", foi mais bem-recebido, embora, a rigor, padecesse do problema fundamental de ser uma produção intermediária, sem começo nem fim. O terceiro foi recebido como o elo final numa cadeia de montagem. Usaram-se adjetivos como "burocrático", "medíocre" e quetais. O conflito edipiano entre Luke Skywalker e Darth Vader chegou a provocar risos de alguns críticos. Um mais afoito chegou a dizer que Lucas infantilizava a psicanálise. Objetivo de culto - Foi o tempo, e o culto de toda uma geração de espectadores, que fez de "Guerra nas Estrelas" um evento no cinema. Quando Lucas iniciou sua trilogia, o cinema ainda não dispunha de tecnologia de ponta para o tipo de efeitos especiais que ele queria criar. Lucas teve de criar a própria empresa para tratar dos efeitos. Foram mais de 300 em "Guerra nas Estrelas" contra 35 em 2001. Os efeitos tornaram-se a menina dos olhos da produção massificada de Hollywood. Hoje, na grande indústria do cinema, não se concebem mais filmes sem efeitos óticos e digitais. Só quem trabalha à margem é que os ignora. São quase 2 mil efeitos em "Episódio 1". Fantasia antiga - Talvez seja o problema. Por estar acostumado aos efeitos especiais, o público jovem não se impressiona mais com as inovações técnicas que "Episódio 1", com certeza, apresenta. A maioria da crítica rebate dizendo que há muitos efeitos e pouca história. Não é verdade. Talvez haja muitos efeitos e uma história "velha". O novo exemplo de fantasia científica que o público jovem quer ver é "Matrix". Os irmãos Warchowskis pertencem à geração que viu "Guerra nas Estrelas" quando era pequena. Seu filme expressa um mundo globalizado e virtualizado, onde as pessoas são agora internautas. "Matrix" é, até certo ponto, a expressão da desumanização da globalização.
Lucas é um homem de 50 e poucos anos. Formou-se nas velhas matinés de antigamente. Curtia heróis de westerns e capa e espada. Inventou uma espada a laser (que nem a ciência explica) que está sempre no centro das melhores lutas de suas aventuras espaciais. Lucas é, comparativamente, um velho. Constrói seu filme no rosto de Pernilla August, respeitando o primeiro mandamento do poeta Nicholas Ray: "Cinema é melodia do olhar". E usa efeitos de ponta para contar histórias na verdade bem tradicionais, de heróis que lutam pela liberdade combatendo vilões bem definidos (o império, a federação, aqui Darth Maul ). É como na série Indiana Jones, em que os vilões, para ser arquetípicos, são quase sempre nazistas.
Talvez seja essa, afinal de contas, a ameaça fantasma a que o filme se refere. É um título um tanto enigmático e até ruim, que Lucas resolveu bancar. O que é o fantasma? O pequeno Anakin Skywalker, que vai virar Darth Vader ao ser seduzido pelo lado escuro da Força? A ameaça fantasma, na verdade, é a tecnologia de ponta que Lucas criou, mudando a face do cinema, e que outros, hoje, levam ainda mais longe. Essa tecnologia é tão ameaçadora, tão devoradora de si mesma, que "Episódio 1" já está todo decupado na rede, com cada uma de suas imagens acessível para os internautas. É um bom, é um mau filme? É um fenômeno cultural. Presta-se a todas as interpretações, desde a mitológica até a psicanalítica.
Tem grandes momentos: a corrida, o décor da cidade submersa, a assembléia dos planetas que compõem a República. Mas a verdade é que essa primeira trilogia tem de ser diferente da segunda. Começa com a relação de um menino com sua mãe. Esse menino é o mal. O terceiro filme vai celebrar a vitória do mal, com a destruição dos jedis, a fuga de Obi-Wan Kenobi e a sagração de Darth Vader. Mais dark, impossível. Não admira que Lucas tenha precisado da face humana de Pernilla August para iniciar essa nova saga.

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