Stammtisch, uma festa com mesa cativa
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terça-feira, 01 de abril de 2003
Renê Muller<br> Reportagem Local 
Se você tivesse desembarcado em Blumenau (SC) no sábado, dia 22 de março, e caminhado pelo Centro da cidade, não ia entender nada. Imagine: ao invés de carros, a rua central está completamente tomada por mesinhas, comida e chope farto. Ao invés de passear ou carregar sacolas de compras, essa gente alegre, vestida de forma colorida, está é fazendo festa. Blumenau enlouqueceu? E o que dizer quando você ainda dá de cara com um homem bonachão, que pula ao ritmo das músicas alemãs enquanto toca o ''Skudoreco'', um barulhento e comprido instrumento que é conhecido como o ''violino do diabo''?
O resgate meio inesperado de um velho costume dos descendentes de alemães em Blumenau tornou-se, quem diria, uma festa que começa a virar atração turística. Os encontros de Stammtische foram iniciados em agosto de 2000, faltando uma semana do aniversário de 150 anos da cidade catarinense. E meio no sufoco, com 16 grupos participantes, agarrados à unha pelos organizadores. Mas chegou a sua sétima edição, no último dia 22, atraindo uma multidão: 256 grupos de Stammtisch, seis mil integrantes, e mais de 20 mil pessoas pela Rua XV de Novembro, o coração da cidade fundada por alemães.
Calma, vamos explicar, por partes. Quem diabo é Stammtisch? Palavra alemã, oriunda da junção de Stamm (cativa) e Tisch (mesa), ou ''mesa cativa'', é o nome que se dá aos grupos de amigos que, por uma razão ou outra, reúnem-se com determinada frequência em um local, ou num rodízio de locais. Pode ser, mensalmente, quinzenalmente, semanalmente, ou mesmo todo dia. A turma pode jogar dominó, cartas, skat (um carteado alemão), bocha, bolão, futebol, ou simplesmente conversar. Mais frequentemente, reúne-se para comer (muito) e beber (ainda mais).
Alguns antigos filhos e netos dos alemães têm até mesmo cadeiras cativas nos clubes de caça e tiro blumenauenses. Na Rua XV de Novembro (que no início da colonização era chamada de Wurststrasse, a Rua da Linguiça, devido ao seu peculiar contorno), pode-se ver alemão que mal fala português, morador da Vila Itoupava ou do Testo Salto, tocando seu bandônion ou sua gaita de boca. Integrantes em trajes típicos, em bombachas, ou vestindo camisetas temáticas, comendo salsicha com chucrute e purê de batata, churrasco ou frutos do mar. Democracia pura.
Os Stammtische não são nada fora do comum. No Paraná, também existem aos montes. São os veteranos que se reúnem a cada quinta-feira, por exemplo, para jogar um futebol no clube. Ou aquela turma de amigos que se reúne a cada sexta-feira em um restaurante, para comer uma costela. Embora a maior parte pouco tenha de alemão além o sobrenome de alguns integrantes, todos acabaram conhecidos como Stammtisch.
A idéia, lançada a partir de um programa local de TV, tomou corpo. Agora, já tem gente formando grupos meio na marra. Afinal, fica meio feio não ter seu Stammtisch, quando todos os seus amigos integram algum. Tem o Sukata, formado por veteranos boleiros que reúnem-se toda sexta-feira, o Bengels Frauen, formado apenas por mulheres, o grupo Doskara, os Amigos do Barney, os Amigos da Itoupava, o Clube da Burricada... E por aí vai, cada um com um nome mais criativo do que outro.


