Nova York Spike Lee acaba de ganhar o primeiro round de sua briga contra a Viacom, o conglomerado de mídia que é proprietário da MTV americana e do estúdio Paramount Pictures, entre outras empresas. O diretor de ''Faça a Coisa Certa'' e ''Febre na Selva'' quer proibir a empresa de batizar um de seus canais de Spike TV, alegando que o público vai associar a rede com seu nome. Um juiz decidiu que o nome não vai poder ser usado até o final do julgamento, mas Lee teve de fazer um depósito de US$ 500 mil, que serão usados para pagamento das despesas legais, caso a Viacom ganhe.
Lee não parece estar fazendo a coisa certa. Conhecido por alfinetar outros profissionais do cinema e ser exageradamente cauteloso em relação ao uso de termos que considera racista, o cineasta está comprando uma briga com a empresa que financiou dois de seus filmes. Ele também deveria começar na semana que vem a desenvolver um novo projeto para o canal Showtime, outro subsidiário da Viacom.
Se o conglomerado tem um enorme poder de mídia no país, o canal a cabo em questão sempre foi inexpressivo. Lançado em 1983 como a The Nashville Network, o canal tentava atrair os fãs de country music. Em 2000, quando foi comprado pela Viacom, teve seu nome mudado para The National Network e, com uma programação recheada de reprises de seriados de aventura, passou a atrair um público 60% masculino. Daí a idéia de lançar o ''primeiro canal de entretenimento voltado para homens''.
Com o nome de Spike TV, o canal deveria ganhar cara nova a partir de ontem, com direito a programação visual inspirada na MTV, e uma série de novos programas. Além de reprises de ''Miami Vice'' e ''S.O.S. Malibu'' e seriados sobre caminhões, o destaque é a estréia de ''Striperella'', o desenho animado criado por Stan Lee que tem a voz de Pamela Anderson. Ela faz o papel de uma stripper que também tem poderes de super-herói.
''Não quero estar associado a uma porcaria'', disse o diretor ao sair da corte, em Nova York. Os advogados do diretor alegam que o canal pretende ter um aumento de audiência ''graças ao uso do nome'' de Lee. De acordo com ele, em uma apresentação para os anunciantes, a Viacom teria associado o novo nome a uma ''personalidade agressiva e divertida'', o que seria a marca do diretor.
Por outro lado, a empresa defende-se alegando que, no máximo, está usando parte do nome do cineasta e outras personalidades, como o diretor Spike Jonze ou o músico Spike Milligan, não estão reclamando. Contrariando casos de ''cybersquatting'' (em que estrelas como Madonna tiveram de brigar na Justiça para ganhar o domínio madonna.com), ''spike'' é também um substantivo e um verbo na língua inglesa, com uma série de significados que podem vir a ser considerados apropriados para a campanha do canal.
No atual clima pró-corporações americano, é difícil que Lee não saia perdendo da briga. Se conseguir evitar que a Viacom use o nome, além de perder um de seus financiadores, vai ficar sendo visto como um encrenqueiro ainda maior na indústria e pode ganhar mais antipatia do público (parte da imprensa já vem acusando o diretor de egocentrismo). Já a empresa só tem a ganhar: a publicidade gratuita que o caso vem gerando com certeza deve amplificar a curiosidade do público em relação ao canal, seja lá qual o nome que venha ter.
Além do canal da Viacom, o sistema de TV a cabo americano (que já tem vários canais femininos, como o Oxygen, We e Lifetime) deve ganhar pelo menos outra fonte masculina de programação nos próximos tempos. A revista ''Maxim'' está planejando lançar a Maxim Entertainment Network, que vai levar o conceito da revista masculina para um canal completo 24 horas por dia.

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