Spielberg vai à guerra
ReproduçãoSteven Spielberg: ‘‘Quis fazer um filme que atingisse o coração e o estômago do espectador’’O diretor Steven Spielberg
fala de ‘‘O Resgate do
Soldado Ryan’’, filme
mostrado em Veneza
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Enviado especial a Veneza
Tênis, camisa xadrez, boné de beisebol. É um milionário quase tão casual quanto Bill Gates. Está aqui pela primeira vez acompanhando um filme dele. Sua presença causa grande turbulência, de resto em qualquer lugar por onde pisa. Há guarda-costas por toda parte, resultado imediato dos desdobramentos da disseminada ira fundamentalista contra os Estados Unidos. Como um dos homens mais ricos do planeta, com toda a certeza não veio atrás de publicidade. Naquela que deve ser a mais concorrida entrevista coletiva da 55ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, Steven Spielberg, diretor de pelos menos cinco dos dez filmes de maior bilheteria da história do cinema, falou principalmente de seu novo trabalho, ‘‘O Resgate do Soldado Ryan’’, que começa agora uma carreira internacional simultânea. Mas conversou também sobre outros temas. E, benevolente diante da maçante insistência dos jornalistas que ainda recorrem à velha história de ‘‘filmes adultos’’ e ‘‘filmes infantis’’, do cineasta com complexo de Peter Pan, não se escusou de responder a estas e outras questões pouco proveitosas para ocasião tão rara.
‘‘Quis fazer um filme que atingisse o coração e o estômago do espectador, porque no fundo ambos são uma coisa só, dependem um do outro’’, responde quando perguntado sobre a violência explícita de ‘‘Soldado Ryan’’, e que chegou a provocar um protesto do movimento italiano pelos direitos civis. Por que tanto sangue, tanta violência, por que o realismo extremo? ‘‘Os filmes de guerra, quase todos os filmes de guerra são falsos, direcionados à espetaculosidade da violência. Quis mostrar a guerra verdadeira, e gostaria que vocês vissem como reagiram os veteranos de guerra americanos quando assistiram ao filme.’’ Lançado há algumas semanas nos Estados Unidos, um fato curioso sobre o filme é o efeito catarse coletiva na cabeça das platéias. ‘‘Uma das coisas mais estranhas e mais belas foi o que me revelou um veterano: somente depois de ver ‘Ryan’ é que ele conseguiu contar aos filhos e sobrinhos sobre a Segunda Guerra Mundial. Vi ainda rapazes de 18 anos saírem do cinema e imediatamente procurar, conversar e abraçar o primeiro veterano que encontravam.’’
O assunto continua o mesmo, mas há mudança de front. E de época. A pergunta seguinte é sobre o terrorismo atual, em suas formas mais diversas. ‘‘Sim, me interessa no futuro dirigir um filme sobre o tema’’, diz o diretor. ‘‘Mas não falar do terrorismo como aquele dos livros de Tom Clancy. O terrorismo será o nosso próximo front ocidental, mas ainda é um fenômeno pouco claro. Gostaria que a América reagisse, talvez até pela força, mas somente em presença de evidencias incontestáveis.’’
Uma jornalista italiana, zelosa de suas origens históricas tantas vezes adulteradas pela parcela misfiticadora do cinema hollywoodiano de outros tempos, pergunta sobre os insistentes rumores de que Spielberg faria uma incursão ao gênero. E se ele de alguma forma conhece ou já teve alguma ligação com o cinema italiano. A resposta é positiva, mas somente em parte: ‘‘O projeto de fato existe, é um ótimo roteiro mas para ser dirigido por Ridley Scott (N.R: diretor de ‘‘Os Duelistas’’, ‘‘Blade Runner’’, ‘‘Alien’’, ‘‘Thelma e Louise’’ e, infelizmente, ‘‘G. I. Jane’’ ...) para a minha produtora, a Dreamworks. Quanto ao cinema italiano, uma vez, ainda muito moço, ao tempo de ‘Encurralado’, tive a oportunidade conhecer o cinema de Federico Fellini e, mais tarde, conhecê-lo pessoalmente. Ele tinha aquilo que aprendi e que considero uma das minhas grandes influências, o espírito livre - free spirit - que estava em toda a sua obra. A capacidade de sonhar e construir imagens com estes sonhos, que é a síntese do próprio cinema.’’

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