"Spartacus", o filme que o cineasta não gostava
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quarta-feira, 10 de março de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 11 (AE) - Kirk Douglas faz o agitador das massas, Laurence Olivier é o aristocrata corrupto e Charles Laughton, o político sagaz. Três atores poderosos que contribuem para fazer de "Spartacus" um raro e grande filme. Mas o próprio Stanley Kubrick não gostava muito de "Spartacus". Numa cena famosa de "Lolita", chegou a manifestar sua repulsa ao filme por meio de uma frase dita pelo personagem de Peter Sellers. Quilt diz: "Meu nome é Spartacus, devolva minha liberdade".
É compreensível: para um artista com fama de obsessivo, que queria controlar cada centímetro da tela, foi certamente uma experiência dura fazer "Spartacus". Não apenas ele não pôde intervir no roteiro que Dalton Trumbo retirou do livro esquerdista de Howard Fast, como só assumiu a direção depois que Anthony Mann foi despedido pelo astro (e produtor) Kirk Douglas. Logo em seguida, a história repetiu-se quando Kubrick foi despedido por Marlon Brando do set de "A Face Oculta".
Kubrick talvez tivesse um "Spartacus" ideal na cabeça, que não conseguiu concretizar. Já o espectador não tem do que se queixar: "Spartacus" é um dos belos superespetáculos do cinema. Tem delicadas e intensas cenas de amor entre Douglas e Jean Simmons, que faz Varínia, tem grandiosas cenas de batalha - que deixam o público pensando no que poderia ter sido o Napoleão de Kubrick, caso ele tivesse concretizado o projeto -, mas impressiona principalmente pelo tema da luta de classes, pouco frequente na produção hollywoodiana.
O cineasta estabelece rituais de sedução e poder na Roma republicana. Olivier, como Crassus, e Laughton, como Gracus, representam as diferentes concepções desse poder e dessa sedução. Crassus é a representação definitiva de Roma como um estilo de poder e magnificência que ignora o povo e os escravos. Olivier passeia pelas temas e palácios com ar marcial, o olhar gélido e a voz trêmula e seca por uma indignação permanente. Gracus é demagogo e populista. Laughton usa seu corpo imenso, as carnes flácidas, a voz pastosa e meio entediada para sugerir uma sedução pacata.
Grande filme, grandes atores. E, embutida na história do escravo que ousa desafiar o poder de Roma, está a temática kubrickiana da glacial exposição do fim do mundo pela dissolução do único elo que une e organiza os homens - a palavra. Kubrick sempre foi atraído pela palavra, mas não como Joseph L. Mankewicz, que era, acima de tudo, um dialoguista brilhante. A palavra de Kubrick é outra coisa - a montagem paralela dos discursos de Crassus e Spartacus na antecipação da batalha decisiva.
Uma das vantagens do vídeo é que o espectador pode parar, voltar atrás, rever a cena quantas vezes quiser. Vale a pena fazer isso com "Spartacus", mas vale também com qualquer dos outros filmes de Kubrick disponíveis nas locadoras. As estripulias de Alex (Malcolm McDowell) no futurista "Laranja Mecânica", ao som de "Cantando na Chuva", o humor virulento de "Doutor Fantástico", a elipse extraordinária, talvez a mais extraordinária da história do cinema, em "2001, uma Odisséia no Espaço" - o macaco atira um osso e, enquanto ele descreve um arco no espaço, a câmera corta para uma nave espacial dançando lentamente no cosmos ao som do "Danúbio Azul", de Strauss. Momentos que só um gênio podia criar.


