Space Business
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de março de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
DivulgaçãoIndependence Day: um trabalho inteiramente devotado à glorificação do espetacularDepois de 20 milhões de cópias despejadas no mercado americano em novembro, a invasão chegou ao Brasil, já está por todas as prateleiras e não há como evitar: dono de locadora que preza seu negócio tratou logo de garantir no mínimo dúzia e meia de cópias. Exatos sete meses depois de lançado nos cinemas de todo o mundo, chegou em vídeo o Jurassic Park, de 97, a aventura que custou 70 e que já passou dos 500 milhões de dólares, podendo em breve, quando a arrecadação final em todas as salas terrestres for conhecida e somada, atingir ou até ultrapassar o recorde de 850 milhões em poder dos dinossauros de Spielberg.
Não faltaram detratores. Em outras palavras, quem enxergasse em Independence Day ou ID4 á- o logo criado para identificar o título - apenas uma patriotada ideologizada, uma intimação imperialista, uma bandeira de colonização cultural, uma coleção de palavras de ordem orquestrada pela CIA. Há mais ou menos uma década, esse amontoado de chavões ainda faria certo sentido e até seria tolerado. Hoje tudo isso soa não apenas anacrônico, mas produto da pressa desinformada, de erro essencial de objeto da indignação e da ira. Na realidade, ID4 é somente parte do grande problema que é a invasão cada vez mais consolidada do produto cinematográfico americano em todos os mercados. Na realidade, a patriotada imperialista, a bandeira da colonização cultural, a intimação imperialista e as palavras de ordem do american way of life vêm de todas as produções norte-americanas que ocupam o espaço de similares em seus próprios países, asfixiando a indústria de filmes, fechando salas, promovendo a estagnação e o desemprego no setor e consequentemente descaracterizando as culturas. É assim no Brasil, na América Latina, na Europa.
Reciclar os clichês No dia 2 de julho, um OVNI colossal entra na atmosfera terrestre. Logo a nave-mãe libera centenas de OVNIs menores que tomam posição diante de grandes cidades do planeta. Em seguida, tem início o ataque, que envolve desde anônimos transeuntes até o presidente da República. A resistência terráquea começa no dia 4. Invasão da Terra, discos voadores, resistência, personagens heróicos. O filme tem apenas uma grande ambição: divertir reciclando uma série de clichês caídos no esquecimento, agora reformulados por novas tecnologias. Aliás nem tão novas assim: muita coisa que está no filme a título de novidade são apenas antiquadas miniaturas mixadas com grafismos high-tech.
Tudo em Independence Day tende ao exagero. A idéia do diretor alemão Roland Emmerich foi exatamente a do over. Tudo é over no filme, desde as dimensões bélicas da invasão alienígena até a solução final do conflito, passando pela música marcial equivocada (ouvidos mais educados vão detectar ressonâncias da trilha que embalou um certo reich) e por um elenco que é propositalmente incontido, às vezes operístico - à la bufa, mas operístico. O excesso é que vai acabar caracterizando o pastiche. ID4 é um trabalho inteiramente devotado à glorificação do espetacular.
A comunidade pensante que foi ao cinema ou que agora vai alugar a fita não se deixa enganar e sabe que o filme, afinal, é uma grande queima de fogos de artifício, uma bravata divertida e recheada de homenagens e referências a outros momentos do gênero. Tudo embrulhado num discurso patriótico que conclama os humanos a lutar juntos pela independência do planeta, claro que sob a bandeira de listras e estrelas. E se algum dia for preciso , que seja longe de canastrões consumados como Jeff Goldblum, Bill Pullman e Will Smith.


