Salvador, 17 (AE) - São Paulo conhecerá quarta-feira (19) o Panorama Percussivo Mundial - Percpan, festival que tem sede em Salvador e é dirigido por Naná Vasconcelos e Gilberto Gil. O Percpan está em sua sétima edição. Para São Paulo, os diretores montaram uma espécie de compacto do que foi mostrado na capital baiana, entre a quarta-feira e o domingo. Serão dois espetáculos, que ocuparão, quarta- e quinta-feira, o palco do Teatro Alfa. De 26 a 29 de maio, uma terceira versão do festival será apresentada em Paris, na Cité de la Musique.
O Percpan foi criado em 1994, com uma idéia clara, literalmente uma tese de mestrado: sua inventora, a socióloga Beth Cayres, partiu de uma frase de Stockhausen - tudo o que vibra faz música. Saiu em busca da possível linguagem comum dos tambores do mundo - um possível pulso universal, um sonho humanista tão belo quanto todos os sonhos bons. Imbuída dessa convicção, transformou a tese em espetáculo. Com o tempo, juntaram-se a ela Naná Vasconcelos e Gilberto Gil.
O festival foi, primeiro, olhado com certa desconfiança - não se sabia que resultado seria obtido. No segundo ano de existência, era nacionalmente aclamado. Em seguida, viriam os aplausos internacionais. O Percpan é hoje o grande festival internacional dos tambores. Uma festa brilhante, em que se busca a convivência dos díspares, a proximidade dos antípodas. No entanto, o festival cresceu demais. Tornou-se pretensioso e atrapalhou as pernas. A sétima edição foi confusa, não por ter sido difusa, mas por ter deixado de lado alguns critérios, aparentemente em nome de outros.
É um festival caro. Para mover-se, com seu corpo espetacular, de Salvador para São Paulo, foi buscar atrações mais populares, de maior apelo de massa, do que em outros anos. Ficou feio. Em dois momentos, muito feio: ao apresentar, em trio
as cantoras baianas Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Margareth Menezes; e ao exibir um espetáculo chamado "Nau Brasil", uma espécie de ópera urdida a partir da idéia narrativa da nau catarineta, para resumir, em cena, os 500 anos de vida do País. Sotaques - Para o trio de cantoras, Gilberto Gil compôs algumas músicas, especialmente. Montou-se uma estrutura de cena rica, com orquestra e coro, tudo muito profissional e anódino, malsoante, desagradável até onde o pop pode ser desagradável. Pode-se argumentar que o pop é uma linguagem universal e, portanto, faz contato com a proposta inicial da festa? Nesse caso, para que a festa se o pop tem suas próprias fórmulas de promover encontros? E de anular sotaques?
Se foi assim com elas, a "Nau Brasil" tentou parecer "autêntica", com roupas de festas populares nordestinas preservadas, tambores e danças mantendo o limite do embelezamento sem perder a cara. Mais uma vez, a pretensão destruiu a boa intenção. O espetáculo, dirigido por Erasto Vasconcelos, irmão de Naná Vasconcelos, também percussionista, foi longo, enfadonho e tão parecido com a nau catarineta quanto os shows "de samba" que o Rio mantém em cartaz para turistas são parecidos com a subida do morro.
Coisas assim deixam a desagradável sensação de que o festival está querendo ser parecido com qualquer outro festival. O que o tornaria dispensável. Pode ter havido apenas um desvio conceitual, um pecado de avaliação. O festival teve momentos belíssimos. Foi aberto no início da noite da quarta-feira, com um cortejo que saiu do Largo dos Aflitos e desfilou até Campo Grande, em frente do Teatro Castro Alves, ponto central do Percpan. O cortejo foi uma inovação criada no ano passado. Aquecem-se os tambores no Largo, desfila a aldeia negra global até o meio da praça. Workshops - Além dos espetáculos no teatro ou na praça, o Percpan promove encontros - entre os participantes, vindos de partes diversas do País e do mundo, e os centros percussivos locais, e também workshops, estes dirigidos, preferencialmente, a estudantes de música. Os encontros e workshops começaram na tarde de quinta-feira, com a ida dos pandeiristas cariocas do grupo Pandemonium à sede do Ilê Ayê.
Coube a Fafá de Belém fazer o primeiro show do Teatro Castro Alves, na noite da mesma quinta-feira. A cantora paraense apresentou-se com as crianças da Flor do Mangue, de Olinda, Pernambuco. Flor do Mangue é fruto de um trabalho de educação e socialização - de crianças carentes - pela música desenvolvido por Naná Vasconcelos. Fafá cantou, com as crianças fazendo o coro, música tradicional, temas populares, do Norte e do Nordeste, um bonito trabalho que merecia ser registrado em disco.
Depois dela, entraram em cena as irmãs Barbosa, cantadoras populares de Campina Grande, na Paraíba. Cantam nas ruas e nas feiras. Gilberto Gil apresentou-as: falta a visão, faz-se a luz. São encantadoras senhoras, de bom humor incorrompível, que foram assunto de um documentário em curta-metragem de Roberto Berliner, vencedor de diversos festivais, e alvo também de Berliner num longa-metragem que teve cenas tomadas em Salvador. De repente, entra em cena Cássia Eller, com o grupo (criado especialmente para o festival) Pegapacapá. Uma provocação estética?
Nada. Sem teorias: a participação de Cássia Eller foi apenas um dos equívocos conceituais do Percpan. Veio, cantou, passou em branco. Depois dela, as duas grandes atrações internacionais da noite: os pigmeus Aka, nômades que vivem na selva (há três anos a organização do festival tentava trazê-los a Salvador, mas não os achava), de expressão peculiaríssima, e as mocinhas do Map Marimba Girls Plus, de Botsuana, com suas marimbas agudas, de lata, vibrantes e de claro brilho.
Na sexta-feira, Martinho da Vila cantou calangos do interior do Estado do Rio e ofereceu ao público um dos melhores presentes do ano, o grupo de Folia de Reis de Duas Barras, sua cidade natal. Cumpre dizer que a Folia estava acabando, ali onde morre o Rio Paraíba; Martinho, elegante e conscientemente, cuidou de resgatá-la do fim. No entanto, entre a apresentação de Martinho e a da Folia, deu-se a de Don Kikas e a Tabanka Djaz, da Guiné-Bissau, apenas uma banda de baile, que poderia ser de qualquer parte do mundo.
Essa foi uma particularidade do festival: o contraste entre o específico e o geral, como conceito. A questão é que para ver e ouvir a musiquinha do Tabanka Djaz não é preciso mover dedos: ela está no ar (mesmo que o grupo seja outro, não o Tabanka Djaz, indistinguível de todos os grupos digeridos pela indústria cultural). Esquisitice - Na sequência da sexta-feira, apresentaram-se os 11 pandeiristas cariocas do Pandemonium (uma orquestra de pandeiros
sem maior expressão), a "Nau Brasil", da qual já se falou, e um esquisito Flamenco Native Ensemble: um grupo de música flamenca formado por latino-americanos, vários do Brasil, e espanhóis, embora nenhum andaluz.
No sábado, a grande atração foi o pernambucano Lenine, acompanhado pela banda Pife Muderno, comandada por Carlos Malta. Mas quem abriu a noite foram Ivete, Margareth, Daniela, das quais já se falou. Depois de Lenine, apresentou-se o grupo do marroquino Hassan Hakmoun, tocador de gwana, música popular local, excelente. Veio depois a engraçada, alegre, ruidosa, informalíssima Blue Glaze Mento Band, da Jamaica, banda de mento
música local, e em seguida veio à cena Rita Marley, cubana criada em Trench Town, na Jamaica, viúva de Bob, também engraçada, alegre, ruidosa, que cantou com o Dalvey Kumina Group.
No domingo, o Percpan deslocou-se do palco do Teatro Castro Alves para a Concha Acústica, que fica atrás dele. Houve atrasos, problemas de som, brigas na platéia - um grupo queria dançar, outro queria ouvir, pediram a intervenção de Gilberto Gil, que disse: "Democracia é administração de conflitos, resolvam vocês" - e seguiu com a festa, que apresentou um resumo do que houve nos outros dias.
Programação - A programação de São Paulo, quarta-feira, prevê apresentações de Martinho da Vila e a Folia de Reis, mas também a da Tabamka Djaz; em seguida, Fafá de Belém e a Flor do Mangue, depois as ceguinhas de Campina Grande, as moças do Map Marimba Girls Plus e o Flamenco Native Ensemble. Para quinta-feira estão previstos shows de Ivete, Margareth e Daniela, Nau Brasil, Cássia Eller, Hassan Hakmoun, Rita Marley, com o Dalvey Kumina Group, Blue Glaze Mento Band e os pigmeus Aka.
Como se percebe, concentraram-se as participações mais atrativas para a cultura de massa na noite de quinta-feira. Os que são muito comerciais ao lado dos que são, por um ou outro motivo, muito exóticos. É uma pena: o Percpan passou anos apostando na diversidade (e dando certo, contra a maioria dos prognósticos) para, ao deslocar-se de Salvador, exibir uma noite em que vale a similaridade. Em tempo: o festival viaja, em 2002, para Nova York, a convite da Brooklin Academy of Music.

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